O risco da radicalização

Dois cientistas políticos preocupam-se com o tom das denúncias dos procuradores contra Lula e com a reação do ex-presidente.

Fernando Dantas

19 Setembro 2016 | 16h00

A radicalização propiciada pela peça de acusação dos procuradores da República contra Lula e pela reação do ex-presidente, em seu discurso emocional e politizado, preocupa cientistas políticos como Octavio Amorim, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape/FGV) e Fernando Abrucio, da Escola de Administração de Empresas de São Paulo (EAESP/FGV).

Ambos os pesquisadores lamentaram o tom estridente e agressivamente adjetivado da acusação, considerando-o um estímulo ao prosseguimento da polarização que tomou conta da política brasileira desde a eleição de 2014.
Amorim, que não é um pensador de esquerda, se diz “extremamente triste” pela evolução recente dos fatos em relação ao ex-presidente Lula. “Para o bem ou para o mal, ele foi o político brasileiro mais importante desde a redemocratização, e poderia se juntar a Fernando Henrique como “elder statesman” (velho estadista), que são figuras públicas com papel relevante em jovens democracias como a nossa”, diz o cientista político.

Ele não defende nenhum tratamento jurídico especial para Lula, mas observa que o anormal no caso é a abordagem superpolitizada das denúncias contra o ex-presidente. “Penso que os procuradores deveriam ter um extremo cuidado com as expressões empregadas, não porque Lula mereça algum respeito especial, mas porque este seria o tratamento jurídico correto”, recomenda Amorim.

Para Abrucio, a forma como está sendo conduzida a investigação de Lula “é muito ruim para o País, e cria uma sensação de politização do Ministério Público no momento em que, como o próprio Temer mencionou, seria melhor haver uma pacificação que facilitasse a reconstrução do pacto político e a tramitação de importantes reformas econômicas”.

Os dois cientistas políticos observaram ainda que a peça de acusação contra Lula propiciou uma defesa do ex-presidente na base da “vitimização”, o que faz sentido tático no momento para o PT, mas pode prolongar por muito tempo o clima de exacerbação dos nervos no jogo político, em prejuízo dos interesses gerais do País.

Segundo Amorim, Lula comanda no momento uma operação defensiva: “A radicalização do discurso é para motivar a militância e mantê-la coesa em torno de algumas bandeiras mínimas; é sabido que a retirada é a manobra militar mais difícil, quando o comandante tem que evitar que seu exército seja cercado e aniquilado – a coesão da tropa nesse momento é absolutamente fundamental”.

Para o cientista político, os objetivos de Lula no momento, visíveis em seu discurso da quarta-feira, são os de preservar seu lugar na política brasileira, manter o PT vivo como organização política minimamente viável e, caso o “bastão da esquerda” passe para outra liderança e outro partido, manter o petismo como fator influente neste “campo”.

Já Abrucio acrescenta que, mesmo na suposição de que o governo Temer seja muito bem sucedido e consiga passar reformas relevantes, o Brasil chegará a 2018 como um país muito desigual e com uma economia ainda combalida.

“Continuará a existir um eleitorado de centro-esquerda que será disputado, e nós não podemos esquecer que, ao longo de 30 anos, o PT foi a principal força política junto a este eleitorado”, ele diz. Assim, na visão de Abrucio, a depender de como evoluir o processo jurídico contra o ex-presidente, Lula tem condições de se manter como uma figura política relevante depois de 2018. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/9/16, sexta-feira.