O risco da volatiliade na indústria

Fernando Dantas

09 de agosto de 2013 | 16h57

A grande notícia da produção industrial de junho não foi a recuperação do indicador, mas sim o aumento da volatilidade na série, para o economista Vinícius de Oliveira Botelho, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre) da Fundação Getúlio Vargas (FGV), no Rio.

A PIM-PF subiu 1,9% em junho (na comparação dessazonalizada com o mês anterior), depois de ter caído 1,8% em maio e subido 1,8% em abril.

Para Botelho, “o aumento da volatilidade é um sinal amarelo muito mais importante do que o suposto sinal verde dado pela forte recuperação da indústria em junho”.

O economista, na verdade, vem trabalhando em cima da volatilidade de série da PIM-PF (a produção industrial do IBGE). E, ao se debruçar sobre o resultado de ontem, ele se surpreendeu com o que encontrou.

O pesquisador mediu a variância nos últimos seis meses da taxa de variação mensal da produção industrial desde 1991. Em termos simples, é uma medida da volatilidade em cada momento do tempo.

E o que ele constatou é que, em junho, aquele indicador trespassou um limiar perigoso, que, ao longo do tempo, foi prenúncio das fases declinantes do ciclo econômico, medidas pelo Comitê de Datação de Ciclos Econômicos (Codace) do Ibre.

A variância nos últimos seis meses da produção industrial atingiu 0,042% em junho. Botelho, examinando a série, verificou que o nível de 0,04% é um sinal amarelo – a sua ultrapassagem no passado prenunciou as piores fases do ciclo econômico mapeadas pelo Codace.

Os dados mostram que recessões (na definição do Codace) foram precedidas por picos de volatilidade da série da PIM-PF. E esses picos aconteceram várias vezes depois que se ultrapassou o nível de 0,04% de volatilidade.

Ele nota também que 0,04% indica um nível muito alto de variância para os padrões históricos da série da produção industrial. No período de janeiro de 2010 a junho de 2012, o indicador teve uma média de 0,015%.

Um exemplo de como o limiar de 0,04% de variância em seis meses sinaliza um período ruim para a economia ocorreu entre setembro e outubro de 2002. O Codace determina, por meio de uma série de indicadores, os momentos de pico e vale da atividade econômica. O período de expansão vai, naturalmente, do vale ao pico. E o de recessão, do pico ao vale. Entre setembro e outubro de 2002, a volatilidade da produção industrial (medida pela variância acumulada em seis meses) passou de 0,011% para 0,04%. Segundo o Codace, este também foi o exato momento em que a economia ingressou na fase pior do ciclo (do pico ao vale).

Ao longo da série, a ultrapassagem do nível de 0,04% de volatilidade também sinalizou diversos outros momentos de virada negativa da atividade econômica.

Há várias razões pelas quais um aumento muito forte da volatilidade pode estar associado à piora da economia, explica Botelho. Empresas mais vulneráveis, com altos níveis de endividamento, podem ser muito suscetíveis a variações negativas súbitas da sua situação de negócios. Um ou dois meses muito ruins, mesmo que entremeados por outros meses bons, podem jogar a empresa numa situação crítica com consequências de longo prazo.

De qualquer forma, o economista alerta que sua pesquisa é muito preliminar, e que ele não está afirmando que a economia brasileira esteja na iminência de uma virada para pior. Botelho acha apenas que o aumento da volatilidade na produção industrial deve ser mais motivo de preocupação do que de comemoração.

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News/Broadcast

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast. E-mail: fernando.dantas@estadao.com

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