O risco de o IPCA estourar o teto este ano

Alguns profissionais de mercado já apostam em inflação acima de 5,25%, o teto de tolerância do sistema de metas para 2021. E, nessa visão, a Selic pode chegar a 6,5% em seis meses.

Fernando Dantas

05 de abril de 2021 | 11h10

Para alguns profissionais de mercado, que começaram como um grupo pequeno, mas que vem crescendo, o Banco Central tem uma chance alta de perder a meta de inflação este ano – isto é, não só o IPCA não ficará em torno de 3,75%, como terminará 2021 acima de 5,25%, o limite de tolerância superior.

A ideia é que o IPCA possa ficar entre 5,5% e 6% em 2021. Para quem crê nisso, é questão de tempo para que as expectativas de inflação de 2022 – que ainda estão praticamente ancoradas na meta de 3,5% do ano que vem – comecem a se descolar.

Já há quem espere IPCA de 4% em 2022, ou até mais.

Quem aposta nesse cenário não está enxergando nada que não esteja à vista para todos. É mais uma questão do peso que se dá aos diferentes fatores.

A alta das commodities não dá tréguas. O IGP-M já está em 31% nos 12 meses até março, e o IPA, o componente de atacado do IGP-M, acumula 42,6% no mesmo período.

A alta do núcleo industrial dentro do IPA está se transmitindo ao IPCA e existe a percepção de que esse processo ainda tem chão pela frente.

Há também a alta nos alimentos e a visão de que as expectativas não têm como ficar ancoradas com tanta pressão nos preços. A inércia, que ajudou o BC quando a inflação estava bem baixa no ano passado, agora se tornou uma adversária do Copom.

O problema maior, já muito repetido, é que a alta internacional das commodities não está sendo acompanhada pela valorização do real, o que costumava ocorrer porque a alta das matérias-primas é benfazeja para um país especializado em exportar esses produtos, como o Brasil.

Na visão praticamente unânime do mercado, além de um componente internacional na desvalorização do real (o reflexo da alta global do dólar), o Brasil sofre com uma depreciação extra por causa da fragilidade fiscal do País.

A votação ultra acidentada de uma PEC de Emergência Fiscal diluída e o orçamento superirresponsável aprovado pelo Congresso ampliaram a incerteza fiscal. Como consequência, as perspectivas são de câmbio mantendo-se desvalorizado, ou até depreciando ainda mais.

Em outras palavras, se essa projeção estiver correta, a inflação de produtos comercializáveis internacionalmente vai prosseguir turbinada pela combinação entre alta de commodities e câmbio desvalorizado por um bom período à frente.

Os serviços, por outro lado, são o fator que ajuda e, em teoria, pode continuar a ajudar a política monetária. A economia, combalida há anos, trabalha com capacidade ociosa e a pandemia afeta em particular os serviços, via isolamento social.

Esse segundo aspecto, entretanto, deve mudar a partir do segundo semestre (ou final do primeiro) quando, espera-se, a vacinação estará mais adiantada, a pandemia vai retroceder e a economia vai se reabrir de forma mais ampla.

Nessa hora, os serviços, cuja inflação ainda está correndo abaixo da meta, poderão reagir, levando a alguma alta de preços.

Aqui entra uma divisão dos analistas sobre a evolução do mercado de trabalho, que é um fator importante para o consumo de serviços, um segmento particularmente sensível à demanda interna (sem renda as pessoas cortam o consumo).

O mercado de trabalho no Brasil tem dois termômetros, a PNAD Contínua e o Caged (registro de emprego formal), que estão apontando temperaturas diferentes. A PNADC mostra um mercado de trabalho em estado bem pior que o Caged, mesmo quando se fica apenas no emprego formal.

Ambas as séries têm problemas. A PNADC por ser feita telefonicamente durante a pandemia, e o Caged porque houve uma mudança de metodologia que pode ter melhorado os números, tornando-os incomparáveis com a série antes da alteração.

Quem no momento confia mais na PNADC vê um mercado de trabalho pior, quem olha para o Caged, melhor. Um argumento de quem enxerga o emprego não tão ruim, e, portanto, um hiato do produto menor, é que os dados do Caged parecem mais congruentes com os do seguro-desemprego.

Tomando-se o Caged como referência, a perspectiva de reabertura mais ampla dos serviços no segundo semestre poderia aumentar a inflação dos serviços, que têm sido o freio inflacionário no Brasil.

Evidentemente, quem tem essa visão de meta descumprida em 2021 e até com algum risco em 2022 (em relação ao limite de tolerância de 4,75%  – 3,5% da meta do ano que vem mais 1,5 ponto porcentual, pp), considera que o BC tem que correr com o ciclo de alta da Selic.

Alguns eram favoráveis a dar 1pp de alta na reunião de março – o BC elevou a taxa básica em 0,75pp, para 2,75%  –  e ainda pensam que esse ritmo mais rápido possa ser adotado em maio. Nessa abordagem, a Selic em setembro já poderia estar em 6,5%, nível em que provavelmente permaneceria por um bom período.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/4/2021, sexta-feira.