O risco de subestimar Bolsonaro

Cientistas políticos alertam para fato de que Bolsonaro é uma liderança popular forte, e que combatê-lo de forma errado pode aumentar ainda mais o seu poder.

Fernando Dantas

29 de setembro de 2020 | 16h29

Em entrevista publicada ontem na edição voltada ao Brasil do jornal espanhol El País, o cientista político Jairo Nicolau, do CPDOC da FGV, alertou a oposição de que Jair Bolsonaro, por mais que se desgoste dele, é uma liderança política popular muito poderosa, um “Lula de direita”.

Embora aponte na própria entrevista erros crassos de Bolsonaro, como abandonar o PSL e ter sido desastroso na tentativa de construir a Aliança pelo Brasil, o cientista indica também vários trunfos do presidente, como a capacidade de comunicação excepcional com o eleitor urbano pobre.

Boa parte desse eleitorado, segundo Nicolau, tem grande identidade e admiração em relação a Bolsonaro, e tende a desculpar falas do presidente e fatos comprometedores sobre sua família que horrorizam a elite intelectual.

A visão do pesquisador do CPDOC não é isolada. Outros cientistas políticos, como Fernando Schüler, do Insper, e Carlos Pereira, da Ebape/FGV, também vêm apontando o risco de deixar que o menosprezo e o alarmismo excessivo ante a figura presidencial contaminem uma avaliação desapaixonada das suas forças e fraquezas.

Para Pereira, um grande erro da esquerda e da intelligentsia brasileira como um todo foi o de considerar que Bolsonaro é uma grande ameaça à democracia.

O cientista político não tem a menor simpatia pelo apreço do presidente à ditadura militar e sua veia autoritária, mas explica que esse não é o ponto relevante nessa discussão.

A questão é saber efetivamente se Bolsonaro pode destruir a democracia brasileira “por dentro”, usando o método de ir minando paulatinamente as instituições, em vez da maneira “antiga” de conseguir que os militares coloquem os tanques nas ruas.

É fato, e Pereira não nega, que essa corrosão interna liderada por presidentes destruiu democracias, ou pelos menos a frágil e incompleta construção de instituições democráticas, em países como Venezuela, Rússia, Turquia e Hungria, entre outros, no período histórico recente.

O erro, entretanto, estaria em não analisar a fortaleza das instituições democrática em cada país em que populistas de esquerda e direita, com tendências autoritárias, chegaram ao poder.

Em particular, são importantes a duração do período em que as instituições democráticas funcionaram de forma consistente, a autonomia e o Poder do Judiciário e dos órgãos de controle em geral, e a força, tradição e viabilidade econômica da mídia independente.

É óbvio que, num país como os Estados Unidos, por exemplo, a força desses fatores é muito grande para que um populista como Donald Trump tenha qualquer capacidade de rebaixar duradouramente o funcionamento das instituições democráticas, o que não quer dizer que não possa provocar perturbações ocasionais.

No caso do Brasil, pode ser menos óbvio para muitas pessoas, mas Pereira também enxerga uma democracia já com algumas décadas de bom funcionamento, independência de Poderes, e autonomia e prestígio de instituições de controles e da mídia – o que, igualmente, não permite que um presidente populista faça um estrago profundo e definitivo (ou duradouro) no arcabouço democrático.

Ele acrescenta que pesquisas acadêmicas do atual momento apontam que o uso da pandemia por líderes populistas para consolidar seu poder autoritário aconteceu justamente em países que já tinham fragilidades graves no arcabouço político supostamente democrático, como Hungria e Turquia.

Segundo Pereira, esse erro de diagnóstico político da oposição se junta a uma tendência a subestimar a capacidade de Bolsonaro (dado o seu estilo tosco e grosseiro e  seus posicionamentos repelentes para muitos) para criar um ambiente no qual o presidente começa a “nadar de braçada”.

Na visão do cientista político, ao contrário do que supõem aqueles que veem o presidente como desprovido de qualquer inteligência, Bolsonaro vem aprendendo e se adaptando: o auxílio emergencial despertou-lhe para a possibilidade de arrebanhar novas porções do eleitorado (como o Nordeste); os problemas legais de seus filhos e as ameaças de interrupção do seu mandato o fizeram moderar o discurso e a virulência contra outros Poderes; e sucessivos fiascos no Congresso levaram-lhe a pôr de lado a radicalidade antipolítica tradicional e se aliar com o Centrão.

Agora, o governo tem até condições de obter algum controle e poder de iniciativa na agenda legislativa, enquanto a oposição, perdida na denúncia de uma ameaça iminente à democracia, não apresenta nada de propositivo e consistente em temas como meio ambiente, política social, agenda econômica etc.

“Em vez de fazer oposição com propostas alternativas de política pública, a oposição está presa na discussão sobre democracia versus autoritarismo”, conclui o pesquisador.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/9/2020, segunda-feira.