coluna

Dan Kawa: Separar o ruído do sinal é a única forma de investir corretamente daqui para a frente

O risco geopolítico

O ano começou bem para a economia mundial, mas importantes analistas da cena global se preocupam com os riscos associados a uma governança global em frangalhos, com o voluntarismo e isolacionismo de Trump combinados a uma China cada vez mais assertiva e poderosa.

Fernando Dantas

07 de janeiro de 2018 | 21h02

O ano começou com bons ventos nos mercados, emanados da conjuntura econômica global favorável. Para o Brasil, que se prepara para a gangorra das emoções eleitorais, nada melhor do que um ambiente externo estimulante e estável, que pode neutralizar o impacto dos temores de uma guinada populista no governo do País a partir de 2019.

Entretanto, os cenários tranquilizadores na seara econômica não se repetem no front geopolítico. Ao contrário, parece haver, entre respeitados analistas do cenário internacional, um nível de preocupação e angústia que não se via há muito tempo.

Ontem (2/1/18, segunda-feira), no resumo introdutório do relatório de riscos globais da Eurasia, consultoria geopolítica internacional presidida por Ian Bremmer, há o alerta de que “se nós tivéssemos que escolher um ano para uma grande crise inesperada – o equivalente ao derretimento financeiro de 2008 –, tem jeito de ser 2018”. Com alguma ironia, Bremmer acrescenta “Desculpem” ao vaticínio.

A leitura atenta do relatório indica que grande parte da preocupação da Eurasia gira em torno da presidência dos Estados Unidos por Donald Trump.

Isto ocorre não só porque o voluntarismo populista e ignorante de Trump é visto como possível causa de grandes conflitos geopolíticos, mas também por sua chegada ao poder ser percebida como sintoma da “malaise” política que acaba resultando em perda de prestígio, legitimidade e capacidade de liderança por parte dos líderes da chamada “ordem liberal” e das mais importantes democracias ocidentais.

O vácuo de poder criado pelas atitudes isolacionistas de Trump, na visão da Eurasia, está instigando Xi Jinping, o cada vez mais poderoso presidente da China, a estender e fortalecer o papel chinês no mundo. Um dos principais temores é a reação que esse movimento pode provocar em outros países, aliados dos Estados Unidos agora se sentindo órfãos, como Japão, Coreia do Sul, Austrália e Índia.

O relatório cita vários riscos, que vão de cyberattacks a terrorismo, Síria, Irã e Coreia do Norte, mas o que parece estar no cerne das preocupações não é tanto o que pode acontecer, mas sim o que seria a deteriorada capacidade de os Estados Unidos e outros esteios do mundo ocidental reagirem à altura.

Esse desconforto com o desmantelamento da capacidade de as potências ocidentais liderarem o mundo também aparece em recente artigo de Martin Wolf, o mais prestigiado colunista do jornal britânico Financial Times.

Para Wolf, a presidência de Trump está enfraquecendo a causa das democracias liberais, que ele define como democracias baseadas na neutralidade do Estado de Direito. Como contrapartida, tem aumentado o cacife do que o colunista chama de “ditaduras plebiscitárias”, e que alguns “eufemisticamente”, como observa Wolf, denominam de “democracias iliberais”: Putin na Rússia, Erdogan na Turquia, outros mandatários nos países da ex-Cortina de Ferro e, acrescento eu, Maduro, Morales e outros na América Latina.

Como Bremmer, Wolf também se inquieta com a ascensão geopolítica triunfal da China, na esteira do vácuo criado por Trump. Não é tanto uma visão antiquada que enxergue a China como parte de algum “eixo do mal”, mas sim a descrença de que a combinação mambembe de uma potência autoritária com um Ocidente completamente rachado possa dar ao mundo a governança necessária diante dos riscos comerciais, econômicos, ambientais e bélicos. Talvez seja recomendável apertar os cintos. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 3/5/18, quarta-feira.

Comentários

Os comentários são exclusivos para assinantes do Estadão.

Tendências: