O risco global

Trepidações no mercado brasileiro oriundas de algum contágio dos problemáticos países sul-americanos parecem menos graves do que os riscos ligados a uma desaceleração mais forte da economia global.

Fernando Dantas

27 de novembro de 2019 | 19h26

Apesar de o cenário para países latino-americanos como o Brasil ter ficado mais apertado nos últimos dias, provavelmente em função dos distúrbios políticos e econômicos em muitas nações da região, na economia global como um todo houve algumas fagulhas de otimismo.

Supondo que o Brasil esteja num momento político-econômico diferenciado em relação à sua região, e que essa diferenciação acabará ficando clara para o investidor externo, a trepidação pode ser vista apenas como ruído numa tendência mais firme de retomada cíclica moderada da economia brasileira.

A retomada cíclica parece estar no horizonte dos analistas. As projeções típicas de crescimento hoje estão em 1% este ano e algo entre 2% e 2,5% para 2020. Para 2021 e 2022 há menos clareza, mas se imagina que o PIB possa se firmar numa trajetória de 2,5% ou mais, que cacifaria Bolsonaro para uma reeleição.

Mas será que, independentemente da América Latina, a economia global vai funcionar a contento nos próximos anos? Essa é uma questão menos evidente.

Em recente artigo, o célebre economista Nouriel Roubini, que previu o colapso das hipotecas subprime, conectando o evento com o risco da crise global que veio a ocorrer em 2008 e 2009, sustenta que a atual “nova exuberância dos mercados” é irracional.

Roubini, depois da previsão que lhe valeu fama mundial, é visto por alguns como alguém permanentemente alertando para o lado negro dos cenários, como o relógio com os dois ponteiros parados no 12 que “acerta a hora” duas vezes por dia.

Mas ele também é respeitado por muitos, e seus argumentos são bons. Os sinais positivos, segundo Roubini, são a melhora nas negociações da guerra comercial entre Estados Unidos e China, a chance de uma saída minimamente negociada para o Brexit, uma política contida de Trump em relação ao Irã e o afrouxamento monetário pelo Fed, BC dos EUA, e pelo Banco Central Europeu (BCE).

Mas o economista alerta para vários fatores de risco. China, Alemanha e Japão continuam a desacelerar. Os atritos entre Estados Unidos e China podem ter diminuído temporariamente, mas podem piorar depois das eleições presidenciais americanas em 2020. A China pode usar a força em Hong Kong, e o Oriente Médio permanece um barril de pólvora.

Na Europa, Alemanha e outros países superavitários continuam a resistir ao apelo para que façam expansão fiscal e Christine Lagarde, nova presidente do BCE, sofrerá inclusive oposição interna para continuar pisando no acelerador monetário.

Roubini também menciona a “malaise” (mal-estar) política e/ou econômica aflorando em uma série de países, em muitos casos com protestos populares, na América do Sul, Europa, Oriente Médio e até na Ásia (Indonésia).

A reação populista de frear fluxos migratórios ou de mercadorias só piora as coisas, além de haver fatores negativos mais de fundo, como demografia e aquecimento global.

Gavyn Davis, analista de macroeconomia do Financial Times, também vê com cautela o recente otimismo dos mercados com a economia global. Ele compara a situação atual com a alta dos mercados ocorrida entre 2016 e 2018, e nota que agora vários elementos estão faltando hoje.

Os Estados Unidos não têm mais capacidade ociosa para ocupar, ao contrário do período 2016-2018. Não há perspectiva de um novo estímulo fiscal como o do início do governo Trump. Ao contrário, o mercado está preocupado com a possibilidade da pré-candidata democrata, Elizabeth Warren, ganhar (embora recentemente seu favoritismo para ser a candidata democrata tenha diminuído).

A China está priorizando resolver seus problemas financeiros, e não deve pisar fundo no acelerador. E, em 2016-2018, a Europa acelerou, puxada pelo BCE, o que não deve se repetir agora.

Se é verdade que a má fase latino-americana é um empecilho para o Brasil, no fundo a suscetibilidade do País a uma piora mais forte da economia global talvez seja um risco mais sério e profundo.

É possível sacudir o contágio superficial – e provavelmente sem fundamentação – de problemas de países como Argentina, Bolívia e Chile que, cada um à sua maneira, passam por conjunturas político-econômicas muito distintas da brasileira.

Mas uma desaceleração mais drástica da economia mundial, que contraia ainda mais o comércio global e deprecie o preço das commodities, tem um potencial maior para descarrilar a retomada brasileira. Esse risco permanece no horizonte, é um motivo para que o Executivo e o Congresso apressem as reformas e rearrumação da casa.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 25/11/19, segunda-feira.