O significado de Tabata

Voto dissidente de partidos de centro-esquerda a favor da reforma da Previdência, com o da jovem deputada Tabata Amaral (PDT-SP), pode indicar o surgimento de uma nova safra de políticos "liberais em economia e em valores", depois do massacre da centro-direita e centro-esquerda moderadas (Alckmin e Marina, respectivamente) nas eleições superpolarizadas de 2018.

Fernando Dantas

18 de julho de 2019 | 19h45

A suspensão das atividades partidárias de oito deputados que votaram a favor da reforma da Previdência, decidida pelo PDT, junto com a abertura de processo para determinar a punição ao grupo, é mais um sintoma das mudanças profundas no sistema político brasileiro – um processo iniciado com as manifestações de 2013, e que levaria depois ao impeachment de Dilma Rousseff, à implosão do centro tucano, à eleição de Bolsonaro e à rejeição do novo presidente ao presidencialismo de coalizão.

Já houve casos no passado de deputados de oposição que votaram a favor de reformas de Fernando Henrique e foram expulsos. E também o caso de petistas expulsos por votar contra a reforma da Previdência de Lula, que vieram a formar o PSOL.

O que distingue o caso atual é que o tema da reforma da Previdência rachou dois partidos de centro-esquerda, PSB e PDT, dos quais vieram 19 dos 379 votos a favor da reforma da Previdência.

O símbolo dessa postura é a jovem deputada Tabata Amaral (PDT-SP), cria de movimentos suprapartidários de formação de novos talentos para a política, associados a personagens como o apresentador Luciano Huck e o bilionário Jorge Paulo Lemann.

Um estudo recente do cientista política Cesar Zucco (Ebape/FGV) e Timothy Power (Oxford) indica que o Congresso Nacional é fundamentalmente dividido em duas grandes correntes: conservadores em comportamento e valores, e liberais em economia, de um lado; e liberais em comportamento e valores, e intervencionistas em economia, do outro.

Sem dúvida, a polarização recente do ambiente político no Brasil favorece esse tipo de agregação binária de posições políticas sobre diferentes temas, deixando sem espaço o grupo que é liberal em comportamento, valores e economia. A implosão do voto centrista em Alckmin e Marina em 2018 vai na mesma direção.

Por outro lado, a dissidência de Tabata e do grupo de deputados do PDT e PSB, que votaram a favor da reforma da Previdência, indica que o terreno da política brasileira continua em permanente mutação, e que o espaço de centro pode estar sendo novamente ocupado. E os personagens que estão chegando aparentam ter mais futuro do que passado na política.

Na esteira da vitória acachapante do governo na votação em primeiro turno da reforma da Previdência, surgiu um debate sobre até que ponto a esquerda foi de fato “esmagada”.

Comentaristas como a economista Laura de Carvalho, que escreve na Folha de São Paulo, e Nelson Barbosa, ex-ministro da Fazenda, notam que as forças contrárias à reforma da Previdência tiveram êxito em diversas demandas. Barbosa listou-as no Twitter hoje: derrubada da capitalização, retirada da mudança do valor do BPC, retirada das medidas relativas à aposentadoria rural, manutenção do tempo mínimo de contribuição em 15 anos e atenuação das novas regras para professores.

A pergunta que fica, porém, é: quem de fato garantiu as atenuações da proposta do governo mencionadas cima?

PT, PSOL e PCdoB, com 100% dos votos contra a PEC como um todo, e proponentes de alguns destaques que comprometeriam fatalmente as fundamentais economias fiscais da reforma?

Ou um grupo de vozes mais moderadas de dentro e de forma do Congresso – como a do próprio Barbosa –, que defenderam a necessidade da reforma, e analisaram detalhadamente o projeto (em vez de renegá-lo como um todo), apontando os pontos que deveriam mudar para em tese se defender os mais pobres e outros interesses tidos como legítimos?

A própria Tabata bateu-se pela atenuação das regras para professores (o que, aliás, contraria a opinião deste colunista).

A impressão, portanto, é de que a esquerda tradicional de fato se fechou no isolamento da posição radicalmente contrária a tudo o que emana do governo. O que parece surgir, por outro lado, ainda em dimensão modesta, mas não insignificante, é uma corrente política centrista, identificada com um liberalismo moderado em economia e uma postura relativamente progressista em questões sociais e de comportamento.

Hoje, esse grupo, embora ainda muito minoritário, tem mais cara de uma oposição viável ao bolsonarismo do que o bloco de esquerda liderado pelo PT (ou ao núcleo alternativo que Ciro Gomes tenta criar).

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/7/19, quinta-feira.