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O significado do debate de Neri e Lisboa

Tanto Marcelo Neri quanto Marcos Lisboa veem riscos para a continuidade do virtuoso processo de inclusão social brasileiro que vem desde o início da década passada. Mas por razões bem diferentes, que implicam apoio a candidaturas que se opõem.

Fernando Dantas

16 de setembro de 2014 | 08h50

Eles conviveram na Fundação Getúlio Vargas (FGV) do Rio, são considerados economistas brilhantes, têm PhD em importantes universidades americanas e passagem pelo governo na gestão petista. Marcelo Neri ainda mantém esta última vinculação como Ministro Chefe da Secretaria de Assuntos Estratégicos da Presidência da República (SAE). Marcos Lisboa foi secretário de Política Econômica quando Antônio Palocci era ministro e, posteriormente, presidente do Instituto de Resseguros do Brasil (IRB).

Pela sua formação acadêmica e trajetória intelectual e profissional, Neri e Lisboa têm visões do mundo e da economia bastante similares. E, no entanto, no debate da série Diálogos do Estadão, reproduzido na segunda-feira (15/9/14) no jornal, os dois economistas parecem ter candentes divergências.

O debate entre os dois pode muito bem ser visto como um reflexo de alto nível da polarização criada pela atual campanha eleitoral. De um lado, em que está Neri, figura o governo de Dilma Rousseff sucedendo dois mandatos do ex-presidente Lula. O economista assumidamente planta o seu olhar nos indicadores sociais, nos trabalhadores, nas famílias. E tudo o que ele vê é muito bom, justificando, portanto (embora ele tenha o cuidado de parar antes de fazer um ponto expressamente de campanha eleitoral), a continuidade do governo de Dilma.

Apesar do mau desempenho da economia, Neri enxerga um virtuoso processo de avanço social que ainda não deu sinais de que vai parar. A desigualdade continua caindo, e a renda familiar per capita aumenta muito mais que o PIB per capita. Mais brasileiros têm emprego formal e casa própria.

Neri vê um país polarizado, com parte da população mais abastada incomodada com o fato de que o avanço da base da pirâmide seja tão mais rápido do que o de si própria. Neri menciona os riscos de economia política, sem entrar em muitos detalhes. Este colunista interpretaria as suas palavras da seguinte forma. A hostilidade ao governo Dilma, do ponto de vista político, decorre em considerável medida do desagrado de parcela da população com o avanço desproporcional dos mais pobres em relação aos mais ricos. Assim, há o risco de que a prevalência destas forças regressistas que participam do combate à presidente carreie, para o processo de tomada de decisões do futuro governo, a influência dos que se opõem à velocidade com que a dívida social brasileira vem sendo resgatada recentemente.

Isto poderia até independer das intenções de quem chegasse à presidência. A economia política – isto é, as correntes de interesse no jogo de conflitos e convergências numa democracia, e que acabam direcionando mais a ação dos governos do que seus próprios objetivos iniciais – poderia pôr em risco o processo de melhoria social no seu atual ritmo e escopo.

É contra essa ideia, mais insinuada que explicitamente enunciada por Neri, que Marcos Lisboa se colocou de forma tão acalorada no debate entre os dois.

Lisboa, apesar de ter servido ao governo Lula, é um economista com perfil mais próximo do pensamento tucano de nomes como Armínio Fraga e Samuel Pessôa (o próprio Neri, aliás, embora com seu foco social, estaria mais perto desta corrente do que da heterodoxia). Considerado um dos economistas mais brilhantes da sua geração, Lisboa dialoga com a campanha de Marina. Assim, pode-se dizer que fala em nome da oposição à atual política econômica que parte tanto de tucanos quanto da candidata do PSB – aliás, a plataforma macro de ambos é praticamente idêntica.

Para Lisboa, o avanço social vem desde pelo menos o início do plano Real, tendo, portanto, raízes do governo do FHC. É um processo maciçamente encampado pela sociedade, que não depende de governos, e que não está em risco de ser paralisado. Os grandes e inegáveis avanços da era Lula (Lisboa orgulha-se de deles ter participado) tiveram como base a estabilização da era tucana e, em muitos casos, partiram de peças iniciais que já tinham sido montadas antes de o PT chegar ao poder. O exemplo clássico são os quatro programas de transferência de renda que foram unificados para formar o Bolsa-Família, que depois foi aperfeiçoado e poderosamente ampliado.

Na visão de Lisboa, o PT introduziu no seu governo, especialmente a partir da crise global, uma nova frente de política econômica, de cunho neodesenvolvimentista, que é cara, está provocando distorções, atrapalha o crescimento da produtividade e, ela sim, põe em risco o avanço social das últimas décadas.

Assim o governo Dilma “aumentou as políticas de proteção (a empresas nacionais), aumentou as transferências para o andar de cima; felizmente, não destruiu o andar de baixo”.

Na verdade, fica claro que tanto o governo Dilma quanto a oposição (seja Marina, seja Aécio) acham que a vitória do outro campo pode abortar ou no mínimo prejudicar o processo virtuoso de melhora social da sociedade brasileira, mas por motivos inteiramente diferentes. Os argumentos estão na mesa. Ao eleitor, cabe analisá-los e fazer sua opção.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 16/9/14, segunda-feira.

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