O “superciclo” e o Brasil

Efeitos iniciais da grande alta das commodities na economia brasileira são alta da inflação e, quem sabe, um pouco mais de crescimento.

Fernando Dantas

05 de maio de 2021 | 10h59

Surgiu nos mercados globais a conversa de um novo superciclo de commodities, refletido em preços muito altos tanto de matérias-primas agrícolas como minerais – e um petróleo que se recuperou plenamente da queda inicial da pandemia.

Na década passada, o “choque do bem” da alta das commodities ajudou o Brasil a crescer e distribuir renda. Veio a crise de 2008 e 2009, que derrubou preços, mas uma nova alta durou até 2011. Não coincidentemente, 2012 foi quando o Brasil e outros emergentes exportadores de commodities começaram a ter os primeiros problemas que viriam a dar a tônica da péssima segunda década do século.

Commodities sustentavelmente em alta para países como o Brasil, portanto, são em teoria tudo de bom. Só que desta vez há um problema. Ao contrário de episódios anteriores, o real está muito desvalorizado e sem sinais até agora de uma apreciação significativa.

Com isso, o impacto da elevação dos preços internacionais das matérias-primas em reais é tremendo, provocando um forte choque inflacionário. O IGP-M, um índice bem carregado de preços ao atacado e ao produtor, subiu estratosféricos 32% nos 12 meses até abril.

Assim, antes mesmo de pensar na terra prometida à frente se o superciclo se firmar, o Banco Central (BC) e o mercado enxergam em primeiro plano o risco inflacionário.

A expectativa de mercado da inflação para este ano está em 5,04%, muito acima da meta de 3,75%. Mas a maior preocupação do BC é que a expectativa para 2022 saiu da meta de 3,5% para 3,61% na última leitura.

Carlos Kawall, diretor do Asa Investiments, tem dúvidas se terá efeito, na tentativa de ancoragem das expectativa da inflação de 2022, o previsto endurecimento de linguagem do Copom após a reunião de hoje e amanhã, na qual se espera que o BC eleve a Selic de 2,75% para 3,5%.

O problema, para Kawall, é justamente que a elevação da expectativa de inflação em 2022 se dá através de fatores sobre os quais o BC não tem poder de interferir: a alta das commodities e o real depreciado, sendo que, nesse segundo caso, o economista vê como causa principal a fragilidade fiscal combinada com a atual confusão política.

Por outro lado, a combinação commodities em alta e real desvalorizado está turbinando o saldo comercial brasileiro, que já tem projeções de um superávit recorde este ano, podendo ir a US$ 70/80 bilhões este ano.

Kawall nota que também os fluxos para o Brasil melhoraram bastante do ano passado para cá. Esse cenário externo bom não fez até agora com que o real se apreciasse como no passado, mas pelo menos, na visão do analista, pode contribuir para reduzir turbulências ligadas à parte fiscal e política.

“Permite uma certa calmaria no cenário confuso em que estamos, imagina se ainda por cima fosse um momento adverso em termos de balança e fluxos externos”, ele comenta.

Fernando Honorato Barbosa, economista-chefe do Bradesco, considera que, em termos de efeitos no Brasil da alta das commodities, o mercado já incorporou a inflação (ainda há algo a vir da alimentos), mas nem tanto o lado bom de potencial impulso à atividade.

Ele nota que já há um efeito muito expressivo de expansão da renda derivada direta e indiretamente da agropecuária e da mineração. Em cidades com presença marcante de postos de trabalho ligados a commodities, o emprego está crescendo ao dobro da velocidade de cidades sem essa característica.

Para Barbosa, esse efeito renda pode se revelar um estímulo à atividade que, se de fato a alta das commodities se revelar mais consistente – merecedora da classificação de início de “superciclo” –, daria um viés positivo às projeções  do Bradesco de crescimento do PIB brasileiro em 2020 e 2021 – que, por enquanto, ainda estão em, respectivamente, 3,3% e 2%.

Um senão apontado por Kawall é que a inflação alta reduz a renda disponível, embora ele veja também o lado positivo do efeito renda da alta das commodities. O diretor do Asa Investment menciona inclusive que o faturamento da indústria de bens de capital com máquinas agrícolas cresce de forma exuberante.

Outro ponto de concordância entre os dois economistas é que o cenário externo róseo, se não teve até agora poder de se sobrepor ao pessimismo político-fiscal e valorizar o real, pelo menos põe um certo teto em quanto de valor a moeda brasileira ainda poderia perder.

Há ainda, como limite a mais depreciação, o fator alta dos juros, puxada pela Selic. Kawall, porém, diz não crer que esse fator seja muito relevante.

Resta, finalmente, a questão de se de fato a atual alta das commodities configura um superciclo mais consistente. Barbosa acredita mais nessa hipótese de que Kawall, mas ambos consideram que esse é, pelo menos, o cenário para se lidar até onde a vista alcança.

Se o superciclo for duradouro, poderá ter implicações econômicas e políticas mais profundas. Quem se eleger em 2022 – Bolsonaro, Lula, algum candidato de terceira via?  – deverá ter a faca e o garfo na mão para tocar com sucesso o seu projeto político.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 4/5/2021, terça-feira.