O tabu do ajuste

O ajuste econômico de 2015 é o grande tabu da campanha. Enquanto a candidatura tucana fala numa correção suave, talvez mais suave do que realmente venha a ser, Dilma e Mantega vão mais longe e praticamente negam que haverá qualquer ajuste.

Fernando Dantas

22 de outubro de 2014 | 15h26

A retórica de campanha pode muitas vezes ser um empecilho para governar. Numa eleição disputadíssima como esta, o problema se agrava. Quando um punhado de votos de um grupo indeciso pode decidir o jogo, os candidatos se esmeram em promessas que normalmente envolvem ampliação de gastos públicos. Isso é especialmente verdadeiro considerando-se que boa parte dos decisivos eleitores indecisos são pessoas pouco politizadas, que resistiram exatamente por isso à polarização ideológica proporcionada pela eleição. Desta forma, é um eleitor provavelmente sensível a decidir seu voto em função de acreditar numa promessa específica que pode beneficiá-lo.

Isso será uma dificuldade grave para qualquer um dos candidatos que chegue ao poder. Quadros técnicos ligados tanto aos tucanos quanto ao petismo veem uma situação fiscal muito dificíl em 2015. Não resta dúvida de que grandes mudanças de curso terão que ser implementadas nas contas públicas no próximo ano, para evitar rebaixamentos de rating e até o risco de perda do grau de investimento, e possibilidades sérias de turbulência.

O candidato tucano Aécio Neves e o seu principal assessor econômico e futuro ministro da Fazenda (caso vença), Armínio Fraga, estão entoando o discurso de um ajuste suave em 2015. Ao mesmo tempo, Neves prodigaliza-se em compromissos de expansão de programas (muitos implantados pelo PT), de revisão do fator previdenciário, de ajuste do limite de isenção do Imposto de Renda – um pacote de bondades que não fecha com a necessidade de realizar um ajuste mais forte. Fraga vem dizendo que há “gordura” para cortar, o que é essencialmente o que os dois principais assessores econômicos de Neves depois do ex-presidente do BC – Samuel Pessôa e Mansueto Almeida – negaram ao longo dos últimos anos, em uma profusão de estudos e discussões.

O caso de Dilma, porém, parece mais grave do que o do tucano. A atual presidente e seu demissionário ministro da Fazenda, Guido Mantega, não só vem dizendo que não há necessidade de praticamente nenhum ajuste em 2015, como fizeram disso a espinha dorsal da plataforma econômica da candidatura oficial. Assim, não há preços defasados a corrigir, os juros não só não devem subir como podem cair e o aperto fiscal será apenas o que é costumeiro em primeiros anos de mandato quando não há crise.

Mantega fala em superávit primário entre 2% e 2,5% do PIB em 2015, mas, a esta altura, com tantos descontos e distorções na contabilidade pública, é difícil saber a qual esforço fiscal efetivo ele está se referindo. Mas ao tomar como ponto de partida a “meta” – hoje considerada inteiramente virtual pela maioria dos analistas – de 1,9% do PIB em 2014, o ministro indica que o salto fiscal do próximo ano não será nada muito grande.

Aliás, Mantega considera que o aperto fiscal não deve mesmo ser exagerado, para evitar freios à demanda numa economia que crescerá perto de zero em 2014. Dessa forma, são coerentes as suas críticas à intenção da candidatura tucana de rever gradualmente subsídios e isenções tributárias. Para o atual ministro da Fazenda, é precisamente o objetivo de fazer um duro ajuste – que ele atribui a Aécio e Armínio – que caracteriza a candidatura adversária como aquela que produzirá juros altos, recessão e desemprego.

Como já notado, os tucanos negam que farão um ajuste desse tipo. Fraga diz que o ganho de confiança dos agentes econômicos com a vitória de Aécio plasmaria o terreno para uma correção bem menos dolorosa. Ainda assim, fica implícito na crítica de Mantega que Dilma está vendendo para a população a ideia de que praticamente nenhum ajuste é necessário.

Caso Dilma ganhe, é possível que o mercado financeiro passe por momentos de estresse, e se houver um efeito mais forte no câmbio e nos juros futuros, será praticamente impossível para o governo ignorar o estrago que pode ser causado tanto na inflação quanto na atividade. A presidente poderia anunciar o nome de um novo ministro da Fazenda de perfil moderado, mas isto só teria efeito se, simultaneamente, fosse anunciado um plano de voo que contradissesse frontalmente o que acabou de ser vendido para a população na campanha eleitoral. Será uma situação bastante complicada do ponto de vista político, e é duvidoso que os marqueteiros da atual presidente possam ser de grande valia numa hora como essa.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

 

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 20/10;2014, segunda-feira.

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