“O ‘tapering’ depende de dados, não tem data precisa”

Fernando Dantas

20 de setembro de 2013 | 22h06

O economista Barry Eichengreen, da Universidade da Califórnia em Berkeley, apoiou a decisão do Federal Reserve (Fed, BC americano) de adiar o chamado “taper”, ou “tapering”, a redução gradual da compra mensal de US$ 85 bilhões em títulos públicos e hipotecários. Mas Eichengreen alerta que o “tapering” é dependente dos dados econômicos e da evolução da situação política em Washington, e pode começar a qualquer momento. A seguir, a entrevista:

O que o senhor achou da manutenção da compra de US$ 85 bilhões em títulos?

Eu era cético quanto à visão consensual do mercado de que o Fed iria começar o “taper”, porque a recuperação ainda está fraca e o crescimento dos Estados Unidos está desacelerando. A política fiscal agora é fortemente contracionista por causa das altas de impostos do início do ano, e nós temos dois fatos adicionais desacelerando o crescimento. O primeiro são juros mais altos das hipotecas, que resultaram de toda a conversa sobre o “tapering”, e o segundo é a incerteza sobre o teto de endividamento (do setor público) e a possibilidade de fechamento do governo mais para frente no ano. Tudo isso era razão de sobra para o Fed continuar o que estava fazendo, comprando US$ 85 bilhões em títulos por mês. E o Fed vai esperar para ver se o desemprego vai continuar a cair.

O que mais lhe chamou a atenção na decisão do Fed?

Outra coisa que é digna de atenção é que houve apenas um voto de dissenso, que todos os outros votaram para adiar o “tapering”. E o voto da Esther George (que votou contra, e é presidente do Fed de Kansas City) é habitualmente de dissenso. Acho que uma votação apertada confundiria o mercado. Esse voto quase unânime mostra claramente que o Fed está preocupado com que o Congresso fará sobre o teto de endividamento, e como os dados sobre a economia vão se mostrar. E isso é algo que deve dar um alívio aos mercados.

Quando o sr. acha que o “tapering” vai começar?

Eles podem começar a qualquer momento. O Fed deixou claro que a política monetária é dependente dos dados. Eles vão esperar para ver o que acontece com o crescimento, se a taxa de desemprego vai continuar a cair, se os números do emprego são bons, e o que o Congresso faz em termos do teto de endividamento. Se as coisas forem bem nesses fronts, eles vão começar o “tapering”; se não, não começarão. Ficou claro hoje que não há certezas, que o que o Fed faz depende dos dados que vão saindo,  que ele pode começar o “tapering” na próxima reunião ou esperar até o ano que vem.

A rentabilidade dos títulos do Tesouro de dez anos está caindo fortemente. Este movimento deve continuar?

Os mercados se surpreenderam hoje. Todos os investidores supostamente espertos, os investidores institucionais acreditavam que o Fed começaria o “tapering”, e a discussão era inteiramente sobre se iria ser uma redução de US$ 10 bilhões, ou US$ 20 bilhões, e qual seria a composição. Eu não acho que nenhum dos chamados investidores espertos acreditava que o Fed iria esperar. Subitamente, eles realizaram que não há nenhuma garantia que as taxas de juros vão subir logo, e a rentabilidade dos títulos do Tesouro está refletindo isso. Mas, como eu disse, é totalmente possível que, se houver indicadores bons no próximo mês, ou dois meses, o Fed comece o “tapering” e o retorno dos Treasuries vai voltar a subir.

É um alívio para moedas de emergentes?

Eu acho que os mercados tiveram uma reação exagerada à conversa sobre “tapering” no verão (do hemisfério Norte), e agora eles realizaram que foi um pouco de “overreaction”, que o “tapering” não é garantido, que não há uma data específica no qual ele vai começar. E uma parte da ação nos mercados que vimos desde junho provavelmente agora vai se reverter. Mas, de repente, o “tapering” pode começar em um mês ou dois. As moedas vão flutuar, é isso que elas sempre fazem.

Qual a sua visão pessoal sobre a recuperação americana?

Acho que a recuperação é frágil. Acho também que o ruído político vindo de Washington DC sobre o teto de endividamento, etc, é potencialmente um grande problema. Assim, pessoalmente, estou reconfortado, contente de que o Fed tenha tomado essa decisão.  Seria prematuro começar o “tapering”, considerando-se a fraqueza da recuperação, o que o Fed chama de ventos contrários.

O que o sr. achou da retirada da candidatura de Lawrence Summers para ser o novo chairman do Fed, o que colocou Yellen como a favorita?

A Yellen é claramente a favorita. Eu sou parte do “time Berkeley”, ela era de Berkeley também, tinha uma sala próxima da minha. Ela será uma boa chair do Fed. Eu pessoalmente não acho que há muita diferença entre o que a Yellen faria como chair e o que o Summers faria. Os mercados parecem acha que a Yellen é um pouco mais pomba (pouco conservadora) em termos de política monetária, e eles entraram em alta na segunda-feira, depois do anúncio da retirada da candidatura do Summers. Mas é como o “tapering” (redução da compra de títulos pelo Fed) no verão, os mercados tiveram uma reação exagerada. Não acho que tenha tanta diferença entre eles em termos das suas visões, e acho que há muita continuidade entre Bernanke e Yellen. O que nós vimos com Bernanke , provavelmente veremos se a Yellen for nomeada chair.

A Yellen é de fato uma pomba?

Ela é muito semelhante ao Bernanke nas suas visões. Acredita no mandato dual do Fed,  acredita que o Fed é responsável por garantir as bases para um alto nível de emprego, para o pleno emprego, da mesma forma como é responsável pela estabilidade de preços. Mas ela entende plenamente que bancos centrais que não conseguem garantir a estabilidade de preços não são capazes de conseguir coisa nenhuma.

Como o sr. vê a atual situação da economia brasileira?

Estive no Brasil há cerca de um mês e meio, e detectei um menor otimismo, à medida que a taxa de crescimento caiu para um nível próximo a 2%. Acho que o Brasil teve um alerta de que não pode crescer simplesmente exportando recursos naturais para a China. O país tem que expandir a sua indústria, tem que ampliar a qualificação da sua força de trabalho. O governo sabe disso, mas implementar essas políticas, investir em capital humano, que é preciso para expandir a indústria moderna e um setor de serviços com competitividade internacional – tudo isto toma tempo.

E a China, o sr. acredita que a desaceleração será um “pouso suave”?

Sim, minha visão já há muito tempo é que a China desacelerou de um crescimento de 10% para algo entre 7,5% e 8%. Isso é saudável para a China, e se parece com um pouso suave. Então, agora, tivemos duas boas notícias neste último mês. Uma da China e outra do Fed.

(Fernando Dantas – email: fernando.dantas@estadao.com)

Esta entrevista saiu originalmente na AE-News/Broadcast,  no dia 18/9/13, quarta-feira

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