O tempo de Bolsonaro se acelerou

Para cientista político Carlos Pereira, os superministros Paulo Guedes e Sergio Moro não têm tempo a perder para aprovar seus principais planos (a reforma da Previdência, no caso de Guedes), antes que o capital político de Bolsonaro se esvaia.

Fernando Dantas

30 de janeiro de 2019 | 00h44

O tempo se acelerou para Paulo Guedes e Sergio Moro, os superministros de Jair Bolsonaro, segundo o cientista político Carlos Pereira, da Ebape/FGV.

Desde a formação e o início do atual governo, o pesquisador se preocupa com a opção feita pelo presidente de não formar um bloco de maioria parlamentar, como tradicionalmente se faz ou se tenta fazer no presidencialismo de coalizão brasileiro.

Pereira nota que uma base sólida no Congresso, montada pela distribuição proporcional de ministérios e cargos aos partidos aliados, é importante para “aprovar o que se quer e vetar o que não se quer”. Quanto a este segundo ponto, ele nota que a literatura de Ciência Política, incluindo a brasileira, mostra que presidentes sem base sólida no Congresso ficam mais vulneráveis a investigações, CPIs e escândalos.

“Sem escudo protetor, há mais fogo amigo e mais disputas internas entre as facções do governo”, diz o professor da Ebape.

Essa vulnerabilidade auto-infligida pelo governo Bolsonaro, entretanto, agravou-se – na análise de Pereira – pelo escândalo envolvendo o senador eleito Flávio Bolsonaro (PSL-RJ), filho do presidente.

O pesquisador observa que o trabalho de Richard Neustadt, cientista político americano (falecido em 2003) que inaugurou os estudos sobre presidência, indicam que forças políticas novas que chegam ao poder presidencial em forte oposição à elite política anterior, que pretendem substituir – bem o caso de Bolsonaro – contam com um trunfo e uma fraqueza.

O trunfo é a energia e a vontade de fazer e a fraqueza é a inexperiência, a ignorância de como a burocracia funciona, “as liturgias, as rotinas, as sequências decisórias”.

A tendência é que a nova elite política gradualmente aprenda a fazer a máquina funcionar do seu jeito, mas ao mesmo tempo vai perdendo capital político. É do balanço entre esse ganho e essa perda que deriva a capacidade real de governar do novo presidente.

“O que me surpreende no governo Bolsonaro é que a aparente perda de capital político se dá numa velocidade muito grande, que não é proporcional ao processo de ganhos informacionais e de expertise”, diz o cientista político.

Isso, para ele, agrava o risco de que Bolsonaro rapidamente se torne “refém do Congresso”.

“Se eu desvalorizo aqueles de quem preciso quando estou forte, essas pessoas tenderão a cobrar um preço mais alto pelo seu apoio quando eu me enfraquecer”, explica, acrescentado que “o custo do apoio e talvez até da sobrevivência política pode subir para as alturas”.

Apesar desse risco ampliado, Pereira considera que ainda há chances razoáveis de se aprovar a reforma da Previdência. E essa aprovação, inclusive, poderia ser a tábua de salvação para o governo, já que significaria um sinal de força e poderia estimular a economia, que, por sua vez, poderia contrabalançar efeitos negativos sobre a popularidade dos escândalos.

Da mesma forma, se Moro conseguisse alguns resultados rápidos em termos da agenda de combate à corrupção e ao crime organizado, os efeitos poderiam ser parecidos.

Os dois superministros, entretanto, têm motivos agora, na visão de Pereira, para agir ainda mais rápido do que é necessário normalmente para aproveitar a janela da “lua de mel” de um novo presidente com o eleitorado.

Paralelamente, Pereira recomenda que Bolsonaro volte atrás na decisão de governar sem os partidos, e parta para montar uma base convencional (com a necessária reformulação do governo para contemplar com ministérios e cargos a base aliada). Essa reversão terá um custo de popularidade, reconhece o pesquisador – já que Bolsonaro vendeu-se ao seu eleitorado como combatente da política tradicional –, mas ainda assim ele considera que o saldo seria positivo.

Segundo o pesquisador do Ebape, rápidas vitórias nas agendas de Guedes e Moro “podem criar uma espécie de bola de neve virtuosa, que talvez consiga sufocar a agenda negativa na qual o governo se colocou”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 28/1/19, segunda-feira.