O teste das eleições

Cientistas políticos veem eleições municipais como momento em que lideranças nacionais, sejam protagonistas já conhecidos ou "outsiders", darão mostras do tamanho do seu cacife político.

Fernando Dantas

29 de agosto de 2016 | 19h04

As eleições municipais de 2016 podem servir de teste para lideranças nacionais de olho nas eleições presidenciais de 2018, segundo cientistas políticos ouvidos pela coluna. Adicionalmente, a campanha deste ano testará os efeitos da nova regra que proíbe o financiamento de empresas.

Para Octavio Amorim Neto, da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape/FGV), uma eventual vitória de João Dória (PSDB) na capital de São Paulo seria importante para cimentar a candidatura presidencial do governador tucano Geraldo Alckmin, assim com um triunfo do atual prefeito, Fernando Haddad, seria decisivo para que Lula e o PT mantivessem alguma competitividade em 2018.

Da mesma forma, é relevante para Aécio Neves que João Leite, candidato a prefeito de Belo Horizonte, que lidera na última pesquisa de intenção de voto, consiga vencer. Os resultados das eleições municipais podem ser importantes também para fortalecer outros grupos e lideranças de olho num papel de maior protagonismo em 2018, como Marina Silva da Rede, Ciro Gomes do PDT e o PSB.

Amorim observa que mesmo a prevista candidatura presidencial de extrema-direita de Jair Bolsonaro (PSC) poderia ser beneficiada a depender do desempenho do seu filho Flávio Bolsonaro, do mesmo partido, nas eleições municipais do Rio, em que aparece em terceiro lugar, com 11% das intenções de voto, na última pesquisa.

O cientista político Ricardo Ribeiro, analista da consultoria MCM, nota que, com os grandes escândalos que torpedearam frontalmente o PT, mas atingiram também PMDB e PSDB, “a política brasileira está mais aberta a ‘outsiders’”. Ele observa que, como de costume, Celso Russomano e Marcelo Crivella, do PRB, partido ligado à Igreja Universal, estão partindo na frente nas pesquisas de opinião para as prefeituras de, respectivamente, São Paulo e Rio. Em outras eleições, essa liderança inicial não se sustentou e ambos foram derrotados. Uma variável a ser observada agora, portanto, é se as mudanças recentes no ambiente político permitirão que esses candidatos – que de certa forma são outsiders em relação aos protagonistas tradicionais – retenham sua liderança ao longo da campanha.

Em relação à importância do resultado da eleição municipal para o governo Temer, não há consenso entre os cientistas políticos ouvidos. Para Amorim, um resultado frustrante para os principais partidos que apoiam o governo Temer, como o PMDB, PSDB, PP e PSD, pode ser um complicador em 2017, ano importante para a aprovação das reformas constitucionais e outras propostas legislativas do presidente em exercício.
“Se os resultados não forem bons, a base pode ficar mais arredia em relação a propostas mais ousadas em termos de reformas previdenciária, trabalhista e política”, diz o cientista político.

Já para Ribeiro, embora haja alguns aspectos de preparação para 2018 – ele cita a disputa intratucana em São Paulo, entre Alckmin, que apoia Dória, e José Serra, ministro das Relações Exteriores, um dos responsáveis pela aproximação entre Marta e seu vice, Andrea Matarazzo, que trocou recentemente o PSDB pelo PSB –, “o governo Temer não estará em jogo nessas eleições, que terão caráter mais local”.

Na mesma linha vai o cientista político e articulista Celso de Barros, para quem, com exceção de São Paulo, a campanha de 2016 não deve ser nacionalizada.

Os cientistas políticos são unânimes na visão de que o PT é o partido ameaçado de uma derrota mais contundente na eleição municipal, embora Amorim considere que a nova regra eleitoral que proíbe financiamento por empresas pode beneficiar partidos com maior capilaridade, como PT e PMDB. Barros acrescenta que a mudança pode favorecer candidaturas de celebridades e candidatos de igrejas e sindicatos. Ele também vê risco eleitoral para o PSDB que, caso tenha um resultado muito fraco, pode recair ainda mais na já incômoda posição de coadjuvante do jogo político presidencial, com reflexos em 2018. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/8/16, quarta-feira.

Tendências: