O ‘timing’ do anúncio do ministro da Fazenda

Fernando Dantas

28 de outubro de 2014 | 15h48

O timing da escolha de um novo ministro da Fazenda por Dilma Rousseff é um primeiro teste sobre sua habilidade em enfrentar o enorme desafio de política econômica do seu segundo mandato. Na segunda-feira (27/10/14), no temido primeiro dia de mercado após a sua vitória, os ativos tiveram um desempenho ruim, mas nem de longe se desenhou um cenário calamitoso, que exigisse uma resposta imediata do governo.

Isso é bom para Dilma. Se o mercado entrar numa fase muito tumultuada, a presidente pode se ver obrigada a sinalizar a curtíssimo prazo uma virada ortodoxa com a nomeação de um ministro da Fazenda que tenha esta linha. Politicamente, seria um sinal de fraqueza de Dilma, já que a ação seria forçada pelo mercado. Além disso, depois de uma campanha em que atacou duramente a orientação liberal dos seus adversários, uma imediata virada à direita traria uma forte impressão de estelionato eleitoral.

Assim, se o mercado não entrar em parafuso, a presidente ganha tempo para fazer uma seleção de seu novo time econômico de forma mais adequadamente litúrgica. O problema, porém, é que há um timing ótimo, e uma delonga excessiva também pode trazer perdas, estas de natureza mais econômica, para a presidente reeleita.

Dilma sinalizou claramente, durante a campanha e no seu discurso de posse ontem, que o seu segundo mandato será de mudanças e aprimoramentos. A saída pré-anunciada de Mantega, por mais que seja atribuída a razões pessoais, sinaliza que a economia – apesar da retórica “antineoliberal” da campanha – é uma das áreas em que haverá alteração de rota.

Estranhamente, porém, o loquaz ministro continua a emitir sinais em direção contrária. Ao dizer na segunda-feira (27/10) em entrevista que a população aprova a política econômica, ele contribuiu para lustrar seu próprio legado, mas ficou menos claro que benefícios a declaração trouxe para os desafios do segundo mandato de Dilma. Afinal, ela já está reeleita, não precisa mais disputar votos com os críticos de oposição à sua gestão da economia.

O que Dilma precisa é preparar as bases para um salto de qualidade da economia que seja perceptível e convincente para a grande maioria da população. Isto inclui, claro, os 51 milhões que, votando em Aécio, provavelmente concordam com o candidato derrotado que a economia está sendo mal conduzida. Que a grande maioria desse contingente concentre-se nas regiões do País responsáveis por uma fatia desproporcionalmente elevada do PIB só aumenta a necessidade de Dilma de engajá-los em seu projeto para o segundo mandato. A insistência em elogiar a atual política econômica faz bem à biografia de Mantega, mas não ajuda a presidente na sua missão pelos próximos quatro anos.

Tampouco é vantajoso para a presidente dar sequência aos expedientes heterodoxos para cumprir as metas de superávit primário e de inflação este ano, que prolongam a sangria da credibilidade. Provavelmente seria melhor limpar o meio de campo, ajustando preços administrados mesmo ao risco de estourar a meta de inflação e dando transparência a um superávit primário em bases recorrentes próximo de zero ou até abaixo disto. De novo, seria um caminho útil para a presidente, ao criar uma boa e transparente base para as melhoras de 2015, mas que provocaria arranhões nos currículos de Mantega e do atual presidente do Banco Central, Alexandre Tombini.

Assim, é do interesse de Dilma definir sem demora demasiada o novo ministro da Fazenda e – caso Tombini vá sair, o que não foi sinalizado até agora – o novo presidente do BC. Uma equipe que estará com Dilma no segundo mandato terá também seus interesses mais bem alinhados com os da presidente.

O anúncio teria de ser acompanhado, é claro, de uma explícita orientação à atual equipe econômica de que se ingressou numa fase de transição e que a sua missão agora passa a ser a de facilitar a vida do novo indicado (ou dos novos indicados), até que este ou estes assumam seus postos.

Fernando Dantas (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 27/10/14, segunda-feira.T

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