O “trade do alívio”

Mercado de ativos brasileiros melhorou recentemente, mas analistas alertam que as bases da relativa bonança não são das mais sólidas.

Fernando Dantas

26 de maio de 2021 | 09h54

Há um alívio nos mercados de ativos brasileiros, englobando bolsa, câmbio, curva de juros e risco. É importante, portanto, avaliar o quão sustentável é essa maré favorável.

Para um reconhecido profissional do mercado financeiro, “é uma melhoria meramente conjuntural, sem nenhum fator mais sólido de médio prazo”.

Em primeiro lugar, ele chama a atenção para o ambiente externo muito favorável, em particular nos últimos 12 meses. Havia receio que de as surpresas inflacionárias ocorridas no mundo rico fossem drenar os mercados, com altas fortes de juros. Na verdade, porém, a liquidez permanece abundante.

A interpretação do Federal Reserve (Fed, BC norte-americano) e de outras autoridades monetárias do mundo avançado de que o repique inflacionário é temporário parece prevalecer na percepção dos mercados.

O aperto monetário ainda é percebido como distante, mesmo que talvez não tão longe quanto os cenários extremamente róseos.

Para o Brasil, especificamente, a combinação de commodities em alta e de recuo do dólar globalmente é “tudo de bom”.

O dollar index, ou DXY, câmbio da moeda americana contra seus parceiros mais relevantes, está abaixo de 90, perto do menor ponto em 2021, e bem afastado do pico acima de 93 no final de março.

No cenário doméstico, segundo a fonte mencionada acima, “os mercados compraram a ideia de que os acréscimos de despesa no orçamento este ano são itens não recorrentes”.

Pelo tom, vê-se que ele é mais cético do que a média dos seus colegas. Para o gestor, “a visão é de que este ano vai ser ruim, mas não se quebrou o teto para sempre, um pouco tipo ‘me engana que eu gosto’”.

De qualquer forma, prossegue, é típico que a liquidez internacional mais abundante torne os mercados mais complacentes. Assim, diminuiu a percepção de risco fiscal desde os momentos tensos da negociação do Orçamento de 2021.

Na área macroeconômica, com rebatimentos na própria questão fiscal, também vieram notícias boas ou nem tão boas assim (como inflação alta) mas que, fortuitamente, podem ajudar, como se verá adiante.

Não dá para fazer leitura positiva da situação da pandemia, que, apesar da queda de óbitos desde o pico no início de abril, dá sinais de uma possível terceira onda, com a vacinação em ritmo lento.

Porém, como nota a fonte, “o consenso de mercado está sendo surpreendido pelo efeito muito modesto da segunda onda na atividade”, ele diz.

O que levou a grandes revisões do PIB do primeiro trimestre. O Ibre/FGV, por exemplo, elevou sua projeção de -0,2% para 1,6%, na comparação do primeiro trimestre com o último de 2020, dessazonalizada. O IBC-Br do Banco Central do primeiro trimestre registrou alta de 2,3% ante o quarto tri do ano passado.

Como apenas o carregamento estatístico já levaria o PIB de 2021 para a faixa de 3,5% a 4%, as projeções de 2,5% a 3% embutiam recuos no primeiro e segundo trimestres. Mas essa visão se alterou rápida e fortemente, levando a grandes revisões do PIB do ano, que já vão para o território de 4% a 4,5%.

E finalmente há a inflação, que deve ser alta este ano, podendo superar o teto de tolerância do regime de metas de 5,25%.

Má notícia para o bolso dos brasileiros, mas no front fiscal, ironicamente, essa inflação elevada aumenta receitas tributárias e o PIB nominal, sendo favorável no curto prazo à dinâmica da dívida pública.

Como já comentado neste espaço, esse efeito pode ser ainda maior porque o deflator do PIB este ano, que corrige o PIB, deve ser consideravelmente maior que a inflação ao consumidor – alargando o denominador da relação dívida/PIB.

“As pessoas estavam preocupados com a dívida bruta sobre o PIB indo para cima de 90%, mas agora está com cara que vai terminar o ano mais próxima de 85%”, diz a fonte.

Finalmente, ele menciona que o ciclo de alta da Selic iniciado com passos robustos (de 0,75 ponto porcentual por reunião) pelo Banco Central pode ter ajudado a reduzir a volatilidade do real, que vem se mantendo em torno de R$ 5,3.

Entretanto, como mencionado no início da coluna, a melhora dos ativos brasileiros não tem raízes muito profundas.

“É um ‘trade de alívio’, de quem achava que o caos estava próximo e viu que se enganou”, diz o gestor.

Se o tapete da liquidez internacional for puxado do pé dos ativos brasileiros, a fragilidade volta a se manifestar. E a situação política interna continua extremamente instável, para ser bondoso.

Adicionalmente, apesar de alguns avanços reais no front das reformas, como as leis de saneamento e gás e a autonomia do Banco Central, muito do que está sendo vendido pela equipe econômica ainda é peixe n’água ou melhora para inglês ver, casos das reformas tributária e administrativa e do projeto ruim de privatização da Eletrobrás que saiu da Câmara.

A fonte mencionada, ao se referir à melhora dos ativos brasileiros, considera que a pergunta correta seria, dada a situação externa, “por que não veio antes”?

Já Luciano Sobral, economista-chefe da NEO Investimentos, avança mais uma casa no ceticismo quanto ao “bom” momento da economia brasileira.

Em primeiro lugar, Sobral nota que o real cedeu menos do que poderia nas últimas semanas, comparado a outras moedas emergentes, como o peso mexicano e rand sul-africano.

Ele observa também que as revisões do PIB que acontecem agora têm como causa “uma foto do passado”, isto é, do primeiro trimestre.

É verdade que, quanto ao segundo trimestre, embora quase não haja dados mais consistentes divulgados até agora, indicadores antecedentes como de confiança ou de atividade em alta frequência emitem sinais positivos.

Por outro lado, nota Sobral, “a pandemia não vai embora e a vacinação continua lenta”. Ele lembra que o impulso do auxílio emergencial acaba em julho sem que se tenha ideia se haverá algo no lugar. Fala-se numa ampliação do Bolsa-Família, mas o padrão desse governo não é exatamente de formular e implementar soluções no tempo certo.

“Há uma festa lá fora [mercado externo], mas por causa das nossas fragilidades e idiossincrasias, não estamos participando do jeito que poderíamos”, conclui Sobral.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 25/5/2021, terça-feira.

publicidade

publicidade