O tropel bolsonarista

O presidente e seus filhos fazem um barulho tremendo que parece agradar principalmente aos bolsonaristas mais fanáticos. Os primeiros sinais da popularidade presidencial neste início de mandato podem indicar que os eleitores mais moderados de Bolsonaro podem não estar gostando tanto de toda essa estridência.

Fernando Dantas

19 de março de 2019 | 23h28

Jair Bolsonaro e seu grupo mais íntimo, especialmente os filhos Eduardo e Carlos, têm imprimido ao novo governo um estilo e um ritmo que não seria demais chamar de um tropel de cowboys em seus cavalos em disparada – aliás, dadas as recém-pronunciadas juras de amor do presidente aos Estados Unidos em plena terra do Tio Sam, é bem possível que essa comparação seja do seu agrado.

Do ponto de vista de ocupar o noticiário, deixar o público atônito e não dar tempo de respirar para aliados e adversários, a estratégia parece bem-sucedida. A sucessão de tweets e declarações provocativas e bombásticas domina as atenções da sociedade, deixando pouco espaço para rivais do protagonismo.

Existe, entretanto, um problema. O indicador crucial de capital político presidencial – e ainda mais de um mandatário como Bolsonaro, que se propõe a romper com o presidencialismo de coalizão – é a popularidade, e os primeiros sinais emitidos neste front não são exatamente animadores.

Segundo recém-divulgada pesquisa do Ipespe, por encomenda da XP Investimentos, o número de brasileiros que considera o governo como ruim ou péssimo saltou de 17% para 24% desde fevereiro, enquanto os que acham ótimo ou bom caíram de 40% para 37% – dentro da margem de erro de três pontos percentuais, mas no limite desta.

Bolsonaro foi eleito por uma coalizão ampla de eleitores com características distintas. Há os bolsonaristas ferrenhos, alguns dos quais provavelmente já adicionaram a direitista Fox News à “lista de comunistas”, pelas perguntas sobre milícias e Marielle que a entrevistadora da emissora fez na segunda-feira, 18/3, ao presidente.

Existem também os evangélicos, que votaram em massa no atual presidente pela pauta conservadora de costumes e tangidos por lideranças como Silas Malafaia, Edir Macedo e Marco Feliciano. Outro grupo é composto por pessoas que acreditam numa economia liberal e foram seduzidos pelo programa de Paulo Guedes. E há finalmente aqueles que, colocados diante da escolha entre a volta do PT e Bolsonaro, optaram por este último – não exatamente porque sejam fãs entusiasmados do atual presidente, mas porque o consideraram o mal menor.

Bolsonaro e seus filhos, entretanto, parecem dirigir o seu marketing político fundamentalmente para o grupo mais fanatizado de admiradores do “capitão”. O aspecto mais emblemático dessa escolha é o culto à figura caricata de Olavo de Carvalho, o autoproclamado filósofo que, nas redes sociais, mistura palavrões abundantes com palpites infundados sobre políticas públicas e ataques furiosos a tudo e todos que identifique como não 100% alinhados aos seus disparates.

Olavo efetivamente é carismático, já fez no passado críticas relevantes ao domínio do pensamento de esquerda no Brasil, parece ter real cultura filosófica e faz um tremendo sucesso como escritor para os padrões brasileiros. De fato, ele ajudou o clã Bolsonaro a formatar o discurso eleitoreiro de classificar como “comunista” todos os seus adversários, o que é um absurdo completo, mas parece ter funcionado como marketing político.

A dificuldade é que, mesmo com sua impressionante legião de seguidores, o “olavismo” é provavelmente um ativo político que vale mais pela garra militante (assim como ocorre com o núcleo fiel de petistas devotados) do que pelos grandes números em termos eleitorais. E, ao fazer tudo para agradar esse núcleo mais radical e aguerrido dos seus defensores, Bolsonaro pode estar desagradando parcelas maiores (e mais moderadas) do seu eleitorado.

É interessante, nesse aspecto, dar uma olhada no que Malafaia vem “tuitando” para os seus 1,4 milhão de seguidores recentemente. Na segunda (18/3), um “tweet” do pastor (estou colocando tudo em caixa baixa) dizia que “mais uma vez Eduardo Bolsonaro perde a oportunidade de ficar de boca fechada; o moço falou besteira na questão da saída do Lula para o velório do neto, fez mea culpa, falou besteira sobre imigrantes, falou besteira dizendo que Olavo de Carvalho é o maior responsável pela vitória (de Bolsonaro)”.

Este último ponto parece ter incomodado particularmente a Malafaia, que “tuitou” em seguida: “O que o presidente Bolsonaro falou diversas vezes (sic) Se 80% dos evangélicos me apoiarem eu vou ser presidente. Foi o que aconteceu. Vem agora seu filho, aprendiz de político, dizer que Olavo de Carvalho é o maior responsável pela vitória do pai. Simplesmente ridículo”. Em três outros “tweets”, o pastor segue desancando Eduardo Bolsonaro.

Chama a atenção, de fato, como os Bolsonaro, especialmente os filhos (mas empurrando o pai), passam do ponto em vários temas, como se estivessem apenas preocupados com os aplausos de uma franja de fanáticos.

Assim, se é verdade que o antipetismo e o antilulismo são traços que unem praticamente todos os eleitores de Bolsonaro, também é verdade que a veia afetiva e familiar dos brasileiros fez com que, mesmo entre muitos dos detratores de Lula, houvesse um sentimento favorável a que o ex-presidente fosse se despedir do neto tragicamente vitimado pela meningite. Também é fato que o eleitorado de Bolsonaro tende a ser conservador nos costumes, mas daí a tuitar uma cena pornográfica para denegrir o Carnaval, a festa brasileira por excelência, tem toda a cara de ser tiro no pé.

Da mesma forma, se é compreensível – e até salutar, em certa medida – que Bolsonaro e Guedes se coloquem contra o discurso antiamericano, muitas vezes tacanho, da tradição intelectual latino-americana, soam muito mal declarações de que imigrantes brasileiros (ainda que ilegais) causam vergonha, que a maioria dos imigrantes é mal intencionada (Bolsonaro se desculpou desta) e que o muro com o México que Trump quer erigir é uma boa ideia.

Esses gritos de guerra exaltados do tropel bolsonarista podem render muitas manchetes e deixar exultante o núcleo estridente dos apoiadores, que delira sobre uma suposta “revolução conservadora” em curso. Por outro lado, não parecem estar agradando muito a massa mais moderada dos brasileiros que votou no presidente em busca de segurança física e econômica.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 19/3/19, terça-feira.