O verdadeiro desafio de Nelson Barbosa

Maior risco para novo ministro não vem do seu suposto adversário, o mercado financeiro, mas sim dos seus supostos aliados - a esquerda petista e os grupos de pressão que usam o guarda-chuva do discurso ideológico para defender a irresponsabilidade fiscal.

Fernando Dantas

18 de dezembro de 2015 | 21h40

A nomeação de Nelson Barbosa para o Ministério da Fazenda representa a vitória dentro do governo de uma visão um pouco mais gradualista do processo de ajuste econômico em curso. Os embates entre Barbosa, como ministro do Planejamento, e Joaquim Levy, o ministro da Fazenda que está saindo, sempre foram mais sobre dose e gradação do que sobre o medicamento em si.

A confirmação do novo ministro da Fazenda veio acompanhada quase que imediatamente por comentários de que um dos seus principais desafios iniciais será o de ganhar a confiança do mercado. Esta visão decorre exatamente do fato de que Barbosa e Levy tiveram várias quedas de braço na condução do ajuste fiscal. Como o ministro que sai é a epítome de tudo o que o mercado defende e preza, Barbosa cai automaticamente na posição daquele que teoricamente contraria o capital financeiro.

No entanto, ao longo de toda a sua gestão no Planejamento, na qual participou ativamente do mais duro ajuste econômico brasileiro em décadas – de preços administrados, cambial, fiscal, parafiscal e monetário –, Barbosa deixou bem claro quais são as diretrizes de política econômica de sua preferência para o atual momento brasileiro. E elas são muito diferentes da radical crítica heterodoxa que se faz ao ajuste entre economistas mais à esquerda, muitos ligados ao PT ou a outros partidos ainda mais à esquerda.

Soa um pouco conspiratório apontar a passagem de Barbosa pelo governo no primeiro mandato de Dilma – em momento particularmente confuso da política econômica – ou documentos que escreveu há muitos anos como guias para uma espécie de “agenda oculta” do ministro, quando este vem participando ativamente num brutal ajuste ortodoxo.

Assim, o mercado não demorará a precificar de forma mais precisa a diferença entre Levy e Barbosa, que consiste no ganho (se de fato tal ganho existir) em manter o esforço do ajuste na intensidade mais drástica possível, comparado a aceitar algum gradualismo. As desconfianças mais mirabolantes em relação ao novo ministro devem logo se dissipar.

Assim, talvez o grande desafio de Barbosa não seja o de ganhar a confiança do mercado, mas sim o de evitar que o gradualismo seja percebido pela esquerda radical e pelos grupos de pressão como um sinal de que o governo perdeu firmeza fiscal. Se isto ocorrer, as pressões para liberar os cofres públicos podem crescer de tal forma que Barbosa, quer queira, quer não queira, não será capaz de contê-las, e uma estratégia menos drástica de ajuste acabará desaguando num novo episódio de descontrole das contas públicas, num momento já suficientemente desesperador da economia.

O verdadeiro desafio de Barbosa, portanto, não será o de lidar com o seu suposto adversário, o mercado financeiro, mas sim o de enfrentar os seus supostos aliados – a esquerda que não acredita no ajuste fiscal e todo o enxame de rent-seekers que se aproveita da camuflagem ideológica para assaltar os cofres públicos. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 18/12/15, sexta-feira.