O verdadeiro risco chinês

Trabalho de economistas Kenneth Rogoff e Yuanchen Yang mostra como crise do mercado imobiliário piora desaceleração na China e como desaceleração da China piora crise do mercado imobiliário.

Fernando Dantas

22 de setembro de 2021 | 10h58

O peso do setor imobiliário na China, considerando a atividade econômica direta e indiretamente envolvida, equivale a 29% do PIB, segundo recente trabalho de Kenneth Rogoff (ex-economista chefe do FMI) e do economista chinês Yuanchen Yang.

(o link está no fim da coluna)

Em artigo publicado hoje pelo site Vox EU, Rogoff comenta o próprio estudo (com Yuanchen) à luz do quase colapso da Evergrande, maior incorporadora da China, que está fazendo trepidar os mercados globais.

Segundo o economista norte-americano, uma desaceleração do setor imobiliário na China deflagrada pela Evergrande teria forte impacto no crescimento econômico chinês, uma má notícia para exportadores de commodities como o Brasil.

Numa versão de agosto do ano passado do paper com Yuanchen, estimou-se que o declínio do mercado residencial – esta projeção foi feita bem antes dos problemas da Evergrande – poderia subtrair de 5 a 10 pontos porcentuais (pp) do PIB chinês, ao longo de alguns anos. E isso não leva em conta uma eventual crise financeira que acompanhasse a crise imobiliária.

No trabalho conjunto, os dois pesquisadores utilizam dados recém-digitalizados sobre o mercado imobiliário chinês para chegar a números mais completos, abrangentes e atualizados do que os de muitos estudos que se voltaram nos últimos anos para analisar o explosivo setor de imóveis, especialmente residências, na China.

Eles notam que a participação direta e indireta do setor imobiliário chinês no PIB – pelos dois estimada –, de 29%, é próxima daquela de países como Irlanda e Espanha logo antes de devastadores estouros de suas respectivas bolhas residenciais, na esteira da grande crise financeira global.

No paper, os dois economistas afirmam que a evidência dos últimos 20 anos, usando bases de dados chinesas e internacionais, “sugere fortemente a existência de uma bolha residencial na China”.

De 2013 a 2018, o investimento imobiliário chinês cresceu 30% e o grau de alavancagem das famílias saltou de 33% para 60%.

No artigo no Vox EU, Rogoff aponta que o espaço residencial per capita na China, um país emergente, já está na faixa do mesmo indicador em nações ricas como Alemanha e França.

E a razão entre preço da casa e renda familiar em cidades chinesas como Beijing, Xangai e Shenzhen supera de muito o mesmo indicador nas mais caras metrópoles globais, como Londres, Paris, Nova York e Tóquio.

Isso não seria um problema, analisa o economista, se o crescimento econômico chinês a médio e longo prazo fosse continuar no ritmo espetacular das últimas três décadas. Mas o problema é que Rogoff, como a maior parte dos analistas, não espera que isso vá acontecer.

No seu incrível crescimento nas últimas três a quatro décadas, a China já experimentou ritmos de 10/12% ao ano, de 8/9%, mas, para o período à frente, a maior parte dos especialista vê algo mais na faixa de 5% a 6% (e olhe lá).

Segundo Rogoff, “os riscos de longo prazo postos pelo envelhecimento, o encolhimento da defasagem tecnológica com o ocidente [que limita o crescimento por ‘catch-up’], e uma desaceleração generalizada e global da produtividade tornam provável que o crescimento [da China) continue numa tendência de baixa, mesmo depois que a economia se recuperar da última onda da pandemia [com a variante delta]”.

Assim, mais do que um cataclismo imobiliário e financeiro como o da grande crise global de 2008-2009, o principal risco para a China, na esteira dos dramáticos problemas da Evergrande, talvez seja a combinação retroalimentadora entre crise imobiliária e desaceleração econômica.

O Brasil que se cuide.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Este artigo foi publicado pelo Broadcast em 21/9/2021, terça-feira.

https://scholar.harvard.edu/files/rogoff/files/nber_27697_peak_china_housing_1.pdf