O voto em Bolsonaro e a morte

Estudo do IEPS mostra correlação entre Estados e municípios que mais votaram em Bolsonaro em 2018 e aceleração de mortes por Covid-19 entre 2020 e 2021. Essas regiões também tinham menos isolamento social em março de 2021.

Fernando Dantas

07 de abril de 2021 | 19h38

Recente trabalho do Instituto de Estudos para Políticas de Saúde (IEPS), dos pesquisadores Beatriz Rache, Miguel Lago, Fernando Falbel e Rudi Rocha, mostra uma correlação entre Estados e municípios que mais votaram em Jair Bolsonaro em 2018 e a aceleração das mortes na pandemia entre a primeira onda de 2020 e a segunda de 2021.

O estudo também mostra correlação entre voto em Bolsonaro e menor isolamento social em março de 2021.

As implicações são graves, como indicam os pesquisadores. É sabido que a gestão da pandemia pelo governo Bolsonaro foi péssima. O presidente já está no seu quarto ministro da Saúde desde que a Covid-19 chegou ao Brasil, provocou descoordenação entre as respostas dos entes da Federação e foi incompetente para garantir adequado suprimento de testes, equipamentos de proteção, oxigênio e, especialmente, vacinas.

O trabalho do IEPS, no entanto, chama a atenção para outro aspecto do desmando presidencial, mais difícil de quantificar.

Bolsonaro, desde o início, colocou-se contra as medidas recomendadas pelos cientistas, opondo-se ao isolamento social, criticando as máscaras, incentivando aglomerações e a reabertura do comércio e promovendo remédios sem eficácia contra a doença.

Há uma literatura acadêmica que mostra que lideranças carismáticas influenciam o comportamento dos seus eleitores. Previamente ao estudo dos pesquisadores do IEPS, outro trabalho, realizado ainda no primeiro semestre de 2020, por Tiago Cavalcanti, Daniel da Mata e Nicolás Ajzenman, já havia indicado que o isolamento social foi menor em municípios onde Bolsonaro foi mais votado em 2018.

Rache, Lago, Falbel e Rocha, agora, utilizaram o número de óbitos diários por Estado até 28 de março de 2021 para calcular a aceleração das mortes por Covid-19 entre o ano passado e este. Mediram o distanciamento social por um índice da empresa In Loco, com dados de dispositivos móveis. No caso do isolamento social, a comparação foi entre a média de março de 2021 e a de fevereiro de 2020, pré-pandemia. Os dados sobre voto em 2018 são do TSE, e se utilizou a votação no primeiro turno.

Os achados mais importantes são de que há correlação positiva entre aceleração de mortes pela Covid-19 em 2021 (em relação a 2020) e apoio a Bolsonaro no conjunto dos municípios, nas capitais e nos Estados. E correlação negativa entre votos em Bolsonaro e distanciamento social em 2021.

Dessa forma, os Estados com menor aceleração de mortes em 2021, e mais isolamento social, são praticamente todos do Nordeste, a região que menos votou no atual presidente: Ceará, Bahia, Piauí, Sergipe, Maranhão, Alagoas, Paraíba e Pernambuco.

Já Estados em que a votação em Bolsonaro foi grande, como Santa Catarina (65,82% no primeiro turno), Paraná (56,89%) e Rondônia (62,24%), estão entre os de maior aceleração de óbitos em 2021 e também entre os de menor isolamento social.

Os autores citam exemplos, no caso de óbitos, como Boa Vista (RR), com 69,3% de votos em Bolsonaro no primeiro turno de 2018 e a quinta maior taxa de aceleração de mortes por Covid (134,8%) nas capitais entre 2020 e 2021. Inversamente, São Luis (MA) teve o quarto menor índice de voto em Bolsonaro (36,6%) e uma queda de 21% no ritmo de óbitos entre este ano e o passado.

O Piauí deu apenas 18,8% de votos a Bolsonaro no primeiro turno, e tem taxa de aceleração da óbitos de 34,6%, das mais baixas entre os Estados. Santa Catarina deu 65,8% dos votos e as mortes se aceleraram em mais de 200%.

Os autores citam ainda o contraste entre o nível de distanciamento social mais elevado em março de 2021 nos municípios nordestinos, comparados aos sulistas.

Uma questão importante é como as altas taxas de mortalidade pela Covid-19 em 2021, principalmente (ano em que o total de óbitos está sendo muito maior), vão impactar o eleitorado de Bolsonaro justamente nas áreas em que ele teve mais apoio em 2018.

A mais recente pesquisa da XP-Ipespe mostra que 55% das pessoas estavam “com muito medo” do coronavírus no final de março, o porcentual mais alto de longe desde o início da pandemia.

A avaliação da atuação de Bolsonaro na crise da Covid-19 é ruim e péssima para 58%, e ótima e boa para 21% (na verdade, houve ligeira melhora ante a última leitura, mas ainda se está nos piores níveis desde a chegada do coronavírus ao Brasil).

Os resultados de popularidade e de simulações de primeiro e segundo turno da pesquisa são bem negativos para o atual presidente. A desaprovação à forma de Bolsonaro governar o País bateu em 60%, recorde absoluto desde a posse.

O pior porém é que Lula já ultrapassou (na margem de erro) Bolsonaro na pesquisa estimulada – com apresentação de lista de candidatos no primeiro turno – e também bate o atual presidente por 42% a 38% na simulação de segundo turno.

É nesse contexto que a mortandade pelo coronavírus avança com mais força nas regiões bolsonaristas do País. Se o eleitorado fiel ligar uma coisa à outra, a situação de Bolsonaro para 2022 ficará ainda mais complicada.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 6/4/2021, terça-feira.