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O xadrez econômico-político

PT e Lula provavelmente terão difíceis decisões sobre as próxima jogadas. Já os adversários ao centro movimentam suas peças de forma bastante estranha.

Fernando Dantas

16 de janeiro de 2018 | 00h14

O Brasil vive um momento político-econômico curioso. O País acaba de sofrer um rebaixamento da classificação de crédito por parte da Standard & Poor’s (S&P), e movimentos na mesma direção podem estar a caminho por parte das outras agências de rating. No entanto, depois de alguns meses de certa trepidação, reinstaurou-se o bom humor nos mercados: a bolsa sobe, os juros e o dólar caem.

Na política, o líder disparado das intenções de votos para a eleição presidencial deste ano, Luiz Inácio Lula da Silva, aguarda a decisão de segunda instância do TRF-4 em Porto Alegre sobre sua condenação pelo juiz Sérgio Moro, marcada para o dia 24 deste mês, a quarta-feira da próxima semana. O mercado parece pressupor que o veredito será bastante desfavorável a Lula, quem sabe uma derrota por três a zero, o que abrirá um enorme rombo no casco da candidatura do ex-presidente e possivelmente a porá a pique.

Mesmo no caso de Lula perder por dois a um, ele e o PT terão, dentro de um período de tempo que não é exatamente confortável, de tomar duras decisões. Uma alternativa é seguir com a candidatura de Lula, lutando nas ruas, nas cortes de Justiça e nas redes sociais e outros fóruns da opinião pública, reciclando o discurso do golpe e atacando a legitimidade das eleições sem o mais popular postulador da presidência.

Essa é a saída do confronto e da polarização, e combina com o atual discurso esquerdista de Lula, que acena com uma guinada populista na política econômica e assusta os mercados. É uma boa alternativa para sacudir o País e talvez desestabilizar as forças centristas, mas não é uma plataforma adequada se por acaso o governo vir a cair nas mãos do PT em 2019.

A outra alternativa é, sem deixar de contestar a decisão do TRF-4 (sempre supondo que Lula perca) e de jogar o papel de vítima de um sistema enviesado contra a esquerda, o PT partir para trabalhar uma candidatura alternativa, sendo que a de Jaques Wagner, ex-governador da Bahia, parece a mais palatável.

É possível que Lula e o PT toquem com a barriga e adiem ao máximo essa decisão, o que seria uma combinação dos dois cenários acima. Mas essa estratégia é arriscada. Diferentemente de Dilma Rousseff, Jaques Wagner não é um poste. As chances de que faça uma campanha vitoriosa e um governo bem-sucedido estão ligadas à autonomia que tenha em relação à Lula e a uma estratégia – que cabe bem no figurino do ex-governador – de reocupar o espaço da centro-esquerda.

Um Wagner como regra três de Lula, e que só entrará no jogo depois de esgotadas todas as tentativas de empurrar a candidatura do ex-presidente até um explosivo fim, já iniciará seu pleito presidencial diminuído em relação à própria estatura política que já ostenta em sua vitoriosa carreira política. Ele será visto como mero substituto do candidato do povo e, num ambiente de altíssima polarização política, terá muita dificuldade de se livrar da tutela de Lula e de caminhar para o centro para governar.

Se os futuros passos no xadrez político de Lula e do PT parecem bem complicados (excluindo a surpresa de uma eventual vitória do ex-presidente no TRF-4), o que é difícil de entender do outro lado é a lógica dos movimentos de peças que já estão ocorrendo.

Com a economia melhorando e chances aparentemente substanciais de Lula ficar mesmo de fora da eleição, tudo indicaria que os diversos personagens entre o centro e a centro-direita deveriam estar se harmonizando numa tentativa de montar uma estratégia comum.

Curiosamente, porém, Henrique Meirelles e Rodrigo Maia, hoje provavelmente os atores governistas mais importantes da – respectivamente – economia e política no Brasil, andam se bicando por conta de ensaios de candidaturas próprias, apesar das fortes indicações de que a popularidade de ambos é irrisória.

É muito difícil mesmo que a Previdência seja aprovada em fevereiro, e Maia está certo ao ser extremamente cauteloso ao tocar no assunto. Criar falsas expectativa nunca é boa estratégia, seja econômica ou política.

Por outro lado, uma união das forças centristas para tentar vender as qualidades da atual política econômica – e lutar até o fim pela reforma da Previdência e outras medidas na agenda de Meirelles faz parte deste esforço –, simultaneamente à melhora efetiva da economia, parece sensata tanto para pavimentar uma candidatura competitiva quanto para semear condições de governabilidade a partir de 2019. Se for preciso se descolar de Temer, há amplo espaço para fazê-lo fora da economia, em temas de ética e combate à corrupção.

De qualquer forma, é impossível ao candidato de centro representar melhor o campo anti-Temer do que o PT e outras forças à esquerda. Se a rejeição ao atual presidente se tornar o ponto decisivo do embate eleitoral, não há nada o que fazer. Assim, as forças centristas devem ter como prioridade se reorganizar e se unir, o que certamente vai criar o cenário mais favorável, ou menos desfavorável, para uma vitória em 2018 e um bom governo a partir de 2019. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 15/1/18, segunda-feira.

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