Ofensiva de comunicação da China

Zhou Xiaochuan, presidente do Banco do Povo da China (BC chinês), busca mostrar aos mercados que a economia está sólida e que o yuan vai se estabilizar, ao contrário do que dizem correntes do mercado que apostam contra a moeda chinesa - e que Zhou classifica de especuladores.

Fernando Dantas

26 Fevereiro 2016 | 17h22

Em recente e longa entrevista à revista Caixin Weekly, do grupo de mídia financeira do mesmo nome com sede em Beijing, Zhou Xiaochuan, presidente do Banco do Povo da China (PBC, na sigla em inglês, banco central chinês), fez a mais detalhada argumentação em favor da tese de que a segunda maior economia do mundo e o seu regime cambial não estão nem de longe caminhando para um colapso.

(Hoje, 26/2, antes da reunião dos ministros da Fazenda do G20 em Xangai – esta coluna foi escrita ontem –, Zhou disse, segundo o Financial Times, que a China tem que estabilizar as expectativas do mercado em relação ao yuan)

A entrevista pode ser vista como parte do esforço das autoridades chinesas de disseminar a sua própria narrativa sobre os problemas recentes do país, em oposição às forças de mercado que se posicionam para lucrar com um eventual “hard landing” (pouso forçado) da economia do país, acompanhado por grande e abrupta desvalorização do yuan.

“A China tem o maior volume de reservas internacionais do mundo, e não vamos deixar que forças especulativas dominem o sentimento de mercado”, disse Zhou à Caixin.

Ele rechaçou a ideia de hard landing, citando a alta do PIB de 6,9% em 2015 e o fato de que, representando menos de 10% do PIB global, a China respondeu por mais de 50% do crescimento do mundo em 2009 e 2010 – um exagero, na sua visão. Agora, esta contribuição está em torno de 25%, o que considera normal.

O presidente do BC chinês reafirma o novo regime cambial, em que o yuan responde tanto a forças de mercados quanto à gestão pelo PBC da busca de estabilidade em relação a uma cesta de moedas. Ao longo da entrevista, Zhou menciona algumas vezes os especuladores, com a liquidez ampliada pelos programas de afrouxamento quantitativo nos Estados Unidos e na Europa, que tentam fazer ganhos a partir da desaceleração chinesa e da volatilidade no mercado de ativos do país. Ele atribui ao discurso da especulação parte do “hype” (excitamento) em relação aos problemas chineses.

Lívio Ribeiro, especialista em China do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV-Rio), acha que a entrevista de Zhou em essência busca desmontar a narrativa de que se chegou ao limiar de uma ruptura na economia chinesa, que se divide em duas alternativas: ou um gigantesco ataque especulativo pelas forças de mercado, ou uma intervenção do próprio governo para estancar o processo.

As reservas chinesas caíram de US$ 4 trilhões para US$ 3,2 trilhões e há fortes saídas de capital, mas a visão oficial – com a qual Ribeiro concorda em substancial parte – é de que estes são movimentos normais de alocação de ativos, principalmente por parte de empresas sediadas na China, em função da trajetória esperada do câmbio. Assim, o yuan valorizou-se, junto com o dólar, ante o iene e o euro, na fase anterior do regime cambial em que este estava vinculado à moeda americana. A recente desvalorização é um reequilíbrio, mas que causou naturalmente movimentos de gestão financeira, como empresas que pré-pagam dívidas em dólares.

Zhou repisa algumas vezes na entrevista que estes são movimentos que terminam quando os rearranjos são feitos, e que é normal que haja algum overshooting tanto no sentido de valorização quanto de desvalorização.

O presidente do PBC também aponta que a China teve um superávit comercial de quase US$ 600 bilhões em 2015, o maior da sua história, o que não caracteriza uma situação de fragilidade externa que possa resultar em ataque especulativo.

Assim, o gigante asiático, como reforça Ribeiro, não tem nenhum problema de conta corrente, e os movimentos que preocupam a alguns são todos na conta de capital. O economista do Ibre acrescenta que um país cujo BC vende US$ 600 bilhões de divisas não pode ser acusado de promover desvalorização competitiva.

Mas Ribeiro acha que, nas devidas proporções, há problemas a serem resolvidos no mercado cambial chinês, e que a velocíssima perda de reservas – independentemente de ser pela conta de capitais – é uma preocupação. Ele nota que vários fatores conspiram para o movimento de desvalorização e saída de capitais: a desaceleração chinesa, a queda dos juros e a ampliação de “canais comunicantes” com o mundo, na esteira da internacionalização da economia e da gradativa transição para um regime menos fechado financeiramente.

É justamente neste último fator que o economista antevê que o governo chinês reforce sua atuação, no sentido de “jogar alguma areia” no gradativo projeto de flexibilização da conta de capital fechada do país – Ribeiro refere-se às especificamente às saídas de capital.

Perguntado diretamente sobre este ponto na entrevista à Caixin, Zhou naturalmente negou, notando que controles de capitais não funcionam bem em economias comercialmente abertas e têm mais sucesso para controlar entrada do que saídas de dinheiro. Ele mencionou o gigantesco volume de comércio internacional chinês, de mais de US$ 4 trilhões ao ano; as milhões de empresas exportadoras e importadoras; as multinacionais operando na China com capital no país de mais de US$ 1 trilhão; e os cerca de 100 milhões de chineses que viajam ao exterior todo o ano e os 50 milhões que vivem em outros países. O governo chinês não tem a intenção – procurou mostrar – de causar danos a todos estes atores envolvidos na internacionalização da economia.

Ainda assim, Zhou enfatizou que as autoridades econômicas vão reforçar a prevenção de riscos e o combate à lavagem de dinheiro, à evasão fiscal, à erosão da base tributária pela manipulação geográfica da realização de lucros e outras atividades financeira ilegais. O que não deixa de ser uma forma de controlar a conta de capitais. (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 25/2/16, quinta-feira.