Oferta puxou inflação americana

Estudo recém-publicado do economista Adam Shapiro, do Fed de São Francisco, indica que ligeiramente mais que metade do salto da inflação dos EUA entre o pré e o pós pandemia foi causado pelo lado da oferta.

Fernando Dantas

22 de junho de 2022 | 21h06

Em recém-lançado artigo do site do Federal Reserve Bank (Fed, BC dos EUA) de São Francisco, o economista sênior da instituição Adam Shapiro calculou que pressões de oferta são responsáveis por ligeiramente mais que metade do salto inflacionário da pandemia nos Estados Unidos, com pressões de demanda respondendo por cerca de 30% e os restantes 20% sendo de natureza ambígua.

O exercício compara a média da inflação em 12 meses nos Estados Unidos dos dez anos anteriores à pandemia, de 1,5%, com a inflação na mesma medida em abril de 2022, de 6,3%. O índice utilizado é o PCE (na sigla em inglês), o deflator do consumo do PIB, um dos indicadores de inflação mais importantes para o Fed.

Da diferença de 4,8 pontos porcentuais (pp), 2,5pp são explicados pela inflação puxada pela oferta correndo acima do seu nível pré-pandemia – o que significa ligeiramente mais que 50% da alta do índice completo.

Já a inflação puxada pela demanda foi responsável por 1,4pp do aumento entre o pré e o pós-pandemia, ou aproximadamente 1/3 da diferença. Sobra 0,9pp para a parte ambígua.

Essa composição inflacionária é um pouco problemática para o Federal Reserve (Fed, banco central dos EUA). Como se sabe, a política monetária só atua sobre a demanda.

Tipicamente, diante de choques de oferta, os BCs podem apertar a política monetária, mas apenas para evitar que as altas de preços relacionadas aos choques se disseminem por outros produtos, especialmente aqueles mais sintonizados com a inflação de demanda.

No seu artigo, Shapiro lembra recente declaração em entrevista de Jerome Powell, chairman do Fed, na qual este reitera que o BC tem poder sobre a demanda, mas não sobre a oferta. Dessa forma, segundo Powell, a capacidade de a autoridade monetária dos Estados Unidos orquestrar um “pouso suave” (desaceleração sem recessão) da economia americana depende também de fatores que o Fed não controla.

Shapiro resume os fatores de oferta que estão causando inflação nos Estados Unidos em falta de trabalhadores, restrições de produção e atrasos no transporte.

Ele acrescenta que “embora haja ampla expectativa de que os problemas de oferta vão melhorar este ano, esse cenário é altamente incerto”.

Para fazer a sua análise, o economista usou mais de 100 categorias de bens e serviços do PCE.

Ele dividiu as categorias entre aquelas cuja variação de preços é causada pela demanda (“demand-driven”) e pela oferta (“supply-driven”).

Nas categorias “demand-driven”, movimentos inesperados nas quantidades e nos preços andam na mesma direção. Já nas “supply-driven”, mudanças inesperadas de quantidades e preços têm direções contrárias.

Segundo o autor, algumas categorias com mudanças de preços excepcionalmente frequentes em 2021-22 puxadas pela oferta são automóveis novos, combustível e serviços de conserto. Já pela demanda no mesmo período destacam-se muitos produtos consumidos em casa, como móveis, roupas, brinquedos, equipamentos audiovisuais e de cozinha, assim como serviços que fecharam nas quarentenas e reabriram, como restaurantes e museus.

Quando o mesmo exercício de separação dos componentes pela demanda e pela oferta é realizado relativamente ao salto do núcleo do PCE (exclui categorias de preços muito voláteis de alimentos e energia) entre o pré-pandemia e o pós-pandemia, Shapiro encontra uma divisão mais equilibrada: cada um deles explica 45% do salto, que foi de 3,3pp.

Fazendo uma análise mais detalhada, mês a mês, o economista detecta que a queda inicial da inflação na pandemia, ocorrida em 2020, foi puxada pela demanda, assim como o impulso inflacionário em março de 2021. A economia se reabria e um programa de impulso fiscal também de março de 2021 empurrou ainda mais a demanda. Com a o início e o fim do surto da variante delta ao longo de 2021, a inflação de demanda enfraqueceu e depois voltou a crescer.

Já a inflação puxada pela oferta começou a subir em abril de 2021, mostrando uma reação um pouco defasada à reabertura da economia. Mas de lá para cá, esse componente manteve-se forte e acelerou mais recentemente, o que pode estar ligado aos problemas nas cadeias de alimentos e energia por causa da guerra na Ucrânia.

Na conclusão, Shapiro observa que choques de oferta elevam preços e suprimem atividade econômica, e assim a sua prevalência aumenta o risco de se entrar num período de baixo crescimento e níveis altos de inflação.

Ele não usa a palavra no artigo, mas muitos chamam a situação descrita acima de estagflação.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/6/2022, quarta-feira.