Onde a direita e a esquerda se encontram

Dicotomia entre populismo e cosmopolitismo ilumina melhor diversas facetas da política no mundo de hoje do que a tradicional polaridade entre direita e esquerda.

Fernando Dantas

17 Novembro 2016 | 11h14

A eleição de Donald Trump para a presidência dos Estados Unidos está reforçando uma dicotomia da política global que atropela sem cerimônia a tradicional polarização entre direita e esquerda. Para entender fenômenos como a vitória de Trump ou a votação pelo Brexit, é mais útil pensar em termos de populismo nacionalista versus status quo cosmopolita.

O protecionismo é uma bandeira que une firmemente a direita e a esquerda do campo populista. Um dos fatores que atrapalhou a candidata Hillary Clinton, por exemplo, foram manifestações de apoio que ela fez antes da campanha à Parceria Transpacífica (TPP, na abreviação em inglês), o acordo comercial negociado por um grupo de nações das Américas e da Ásia, com exclusão da China.

Trump, o populista de direita, naturalmente é contra a TPP. Da mesma forma, Bernie Sanders, o esquerdista democrata que disputou com Hillary a candidatura a presidente, considera a TPP “um desastre”. Este, aliás, foi um dos argumentos utilizados pelos defensores de Sanders como candidato mais efetivo do que Hillary contra Trump. Enquanto a candidata derrotada, vista como uma típica representante do establishment cosmopolita, “pecou” várias vezes em termos de apoiar o livre-comércio, Sanders tem um histórico protecionista impecável.

Esse amálgama de direitistas e esquerdistas no campo populista tem levado a algumas situações insólitas, quase surreais. Um exemplo é o imbróglio envolvendo a New Balance, uma marca de tênis esportivos que, ao contrário das suas concorrentes, mantém a produção nos Estados Unidos. Depois da vitória de Trump, um executivo da empresa reclamou da postura de Obama pró TPP (o presidente é o principal promotor do acordo), e disse que agora, com a eleição do republicano, “as coisas vão se mover na direção certa”.

Foi a senha para um motim de parte dos usuários do New Balance, que, enfurecidos pelo elogio a um político que destrata minorias e mulheres e resvalou muitas vezes no racismo – e deu corda livre para racistas ferozes que o apoiaram –, passaram a jogar no lixo, na privada e até a queimar seus pares de New Balance. Claro que, em sintonia com os tempos, todas essas ações foram filmadas e colocadas na internet junto com a manifestação de ira dos seus perpetradores.

A New Balance buscou se retratar fazendo juras de que não apoia o racismo ou qualquer forma de discriminação, mas buscando explicar também porque se opõe à TPP. Para azar da empresa, entretanto, Andrew Anglin, um notório neonazista, à frente do Daily Stormer, website igualmente neonazista, prolongou a confusão declarando que o New Balance são “os calçados oficiais das pessoas brancas”. A marca teve de redobrar sua profissão de fé na tolerância, mencionando que seus milhares de empregados provêm de “todas raças, gêneros, culturas e orientações sexuais”.

A saia justa da New Balance é um exemplo de como a polarização entre nacionalismo e cosmopolitismo aproxima pessoas e tendências situadas em polos opostos do eixo direita-esquerda. Na verdade, a marca tem até um certo histórico de simpatia junto ao público mais progressista exatamente por resistir à globalização.

Uma grande questão agora é se a política econômica de Trump, incluindo medidas protecionistas, conseguirá trazer ganhos à parcela do eleitorado que, segundo as melhores análises, lhe garantiu a vitória: a classe trabalhadora, predominantemente branca, que sofreu as maiores perdas relativas com a globalização. Na verdade, o discurso eleitoral e as promessas de Sanders também tinham, como um dos principais alvos, este mesmo grupo.

Analistas de grande prestígio global – mas que sem dúvida pertencem à elite cosmopolita –, como o economista Lawrence Summers e o economista e jornalista Martin Wolf (principal colunista do Financial Times), já saíram a campo para lançar sérias dúvidas quanto à capacidade das medidas já anunciadas por Trump “entregarem” o que foi prometido aos seus eleitores.

São críticas como as de que medidas protecionistas encarecerão produtos importados baratos consumidos por americanos com rendas modestas, e podem gerar uma guerra comercial que afetará indústrias dos Estados Unidos que exportam, e consequentemente seus trabalhadores; os cortes de impostos beneficiarão muito mais os ricos; o desenho de participação privada, previsto pelos planos do presidente eleito, nas obras de infraestrutura vai restringir a escala da iniciativa e as fontes de funding, e vai deixar de fora os empreendimentos mais necessários; e o consequente aumento do déficit público pode levar a maioria republicana no Congresso, mesmo contra a vontade de Trump, a cortar benefícios sociais que acabam acolchoando a decadência socioeconômica dos trabalhadores brancos – ainda que, na visão preconceituosa de certa direita americana, o “welfare state” seja um cabide de renda para minorias étnicas que não gostam de trabalhar.

No seu artigo no FT, Summers rememora um grande estudo do falecido economista Rudiger Dornbusch sobre programas populistas no mundo todo, que mostra que “embora eles algumas vezes tenham efeitos positivos imediatos, no médio e longo prazo foram catastróficos para a classe trabalhadora em nome de quem foram lançados”. E isso vale tanto para o populismo de direita quanto de esquerda, é bom acrescentar. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 16/11/16, quarta-feira.