Os fatores da retomada

Velocidade de vacinação, possibilidade de terceira onda e relação entre gravidade da pandemia, mobilidade e atividade econômica são vetores interrelacionados que vão ditar o ritmo da recuperação econômica no Brasil.

Fernando Dantas

22 de junho de 2021 | 21h02

Três fatores interrelacionados ditarão o ritmo da retomada brasileira nos próximos meses: velocidade da vacinação, uma possível terceira onda de Covid e a relação entre gravidade da pandemia, mobilidade e atividade.

No ritmo da vacinação, há boas notícias, como fica claro numa certa “competição” entre Estados e cidades para acelerar os calendários. Nos últimos sete dias, a média diária de vacinas (primeira e segunda dose) chegou a quase 1,3 milhão.

Em relação à possibilidade de uma terceira onda, ainda existem dúvidas sobre se o País caminhará para um novo colapso do sistema hospitalar como o acontecido em março e abril. O que já está claro é que a melhora, tanto em termos de número de casos como de óbitos, ocorrida após o pico da segunda onda, já foi interrompida e até revertida.

Em junho, em particular, há uma tendência nítida de piora. Do início do mês até agora, a média móvel diária de sete dias de novos casos subiu de 61,5 mil para 73,6 mil; e a de novos óbitos, de 1881 para 2061.

Há ameaças no horizonte, como a chamada “variante delta” do coronavírus, originada na Índia, que já chegou ao Brasil, e que pode ser a mais transmissível cepa surgida até agora.

Segundo a Organização Mundial de Saúde (OMS), a delta – que já fez estragos em países como Índia, Reino Unido, Rússia, Indonésia e que ameaça os Estados Unidos – pode se tornar a variante mais ativa do mundo.

Finalmente, no front do terceiro fato – gravidade da pandemia/mobilidade/atividade –, recente post do economista Lucas Farina, do FGV Ibre e da consultoria MCM, no Blog do Ibre, mostra como, na segunda onda, a atividade retomou mesmo com a mobilidade bem reduzida.

No caso do Brasil, de março a meados de abril do ano passado, os indicadores de mobilidade do Google relativos a “varejo e lazer” e estações de transporte público sofreram quedas entre 60% e 70%. No caso do indicador de local de trabalho, o recuo ficou entre 40% e 50%.

No momento subsequente, de abril a dezembro de 2020, os indicadores de mobilidade foram retomando a normalidade gradativamente, mas voltaram a cair com a segunda onda este ano, embora menos do que na primeira.

Mas o que chamou atenção de Farina foi o fato de que a reação da atividade à queda da mobilidade na segunda onda – que, embora menor do que na primeira, foi expressiva – foi muito pequena, quase marginal.

A medida de atividade econômica utilizada pelo pesquisador foi o Indicador Coincidente Composto da Economia (CEI), do FGV Ibre-Conference Board.

“Apesar de a primeira [onda] ter tido um impacto bastante expressivo sobre a atividade, como fica evidente pelo nível do CEI registrado em abril de 2020, o mesmo não foi verdade para o caso da segunda, com a economia tendo se adaptado relativamente bem a esse ‘novo normal’, impedindo que a atividade econômica sofresse um novo baque expressivo com o recrudescimento da pandemia”, escreveu Farina.

Na análise que fez no artigo de indicadores de mobilidade e indicadores coincidentes de atividade econômica em alguns países desenvolvidos, o economista também encontrou aproximadamente o mesmo padrão de diferença entre as duas ondas, embora com intensidades diferentes de país para país.

Em resumo, a nova onda da pandemia, apesar de (no Brasil, pelo menos) matar mais, restringiu menos a circulação e mesmo essa restrição teve impacto negativo proporcional significativamente menor na atividade.

As interrelações entre os três fatores mencionados inicialmente nesta coluna são óbvias. Uma terceira onda mais forte pode frear a economia, mas a vacinação mais rápida pode contê-la.

E o freio dessa eventual terceira onda sobre a atividade pode ser mais fraco se, como da primeira para a segunda, não só a mobilidade cair menos como o impacto da menor mobilidade sobre a economia for proporcionalmente mais diminuto.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/6/2021, segunda-feira.