Os manufaturados e déficit externo

Samuel Pessôa argumenta, com base em análise da piora da balança comercial de manufaturados, que este efeito negativo no déficit em conta corrente brasileiro pode ser temporário.

Fernando Dantas

06 de dezembro de 2019 | 14h12

O balanço de pagamentos brasileiro tem uma nova cara depois das revisões da metodologia contábil pelo BC, em agosto e novembro, e da constatação de que a balança comercial piorou.

Em didática coluna publicada ontem pelo Broadcast, Carlos Kawall, diretor do Asa Bank, previu que o déficit em conta corrente feche 2019 em US$ 52 bilhões, ou 3,1% do PIB.

Mas ele alertou que a escala do termômetro também mudou, e que não há comparabilidade com os números oficiais do passado anteriores a 2018 (as revisões metodológicas divulgadas este ano não retroagiram além do ano passado).

Assim, o Brasil, caminhando para um déficit em conta corrente de 3,1% do PIB, não estaria perigosamente próximo do déficit em conta corrente de 2014, que precedeu grande recessão e atingiu oficialmente 4,1% do PIB.

A razão é que esse número de 4,1% possivelmente foi subestimado por questões metodológicas, e, adicionalmente, foi reduzido pelo real apreciado à época (que “aumenta” em dólares o PIB, isto é, o denominador). Apenas o efeito cambial já jogaria o déficit em conta corrente de 2014 para 5,5% do atual PIB convertido em dólares, valor bem mais distante da projeção de 3,1% para 2019.

Em valores, os US$ 52 bilhões que o Asa Bank prevê de déficit em conta corrente para 2019 são aproximadamente a metade do déficit de US$ 101,4 bilhões de 2014.

Mas é inegável, como o próprio Kawall aponta, que houve piora na balança comercial.

Recentes estimativas do Ibre/FGV, que ainda estão sendo refinadas, tentam mapear a piora de aproximadamente US$ 30 bilhões na balança comercial de bens manufaturados desde 2017, como explica Samuel Pessoa, do Ibre e sócio do Julius Bäer Family Office.

Cerca de US$ 8 bilhões dessa piora desde 2017 estão ligados a plataformas da Petrobrás, e envolvem uma complexa questão contábil.

O regime tributário Repetro fazia com que fosse compensador para a Petrobras “exportar” plataformas produzidas no Brasil, e que nunca saíram do País, e “alugar” os seus serviços. No passado, esse expediente produziu exportações maiores do que foram na realidade.

Mais recentemente, o negócio se inverteu. Mudanças no Repetro fizeram com que a Petrobras começasse a “importar” as plataformas que nunca saíram do Brasil. Isso implicou também que a estatal deixou de pagar o “aluguel” referente a essas plataformas, o que reduz o déficit da conta de serviços. Mas esta é uma redução estendida no tempo, enquanto a “importação” impacta de uma vez só a balança comercial. As mudanças no Repetro explicam grande parte do aumento do déficit comercial ligado às plataformas.

Pessoa acrescenta que as estimativas indicam que outros US$ 8 bilhões da piora da balança comercial de manufaturados desde 2017 devem-se à redução das importações pela Argentina (centradas no segmento automotivo) devido à crise econômica no país vizinho.

Restam US$ 15 bilhões que são uma piora com causas mais duradouras (como a desaceleração do comércio global, mas não só isto).

Por outro lado, houve uma grande desvalorização do real ao longo dos últimos anos. Em janeiro de 2018, o real chegou a ser cotado em pouco mais que  R$ 3,1, o que dá uma desvalorização de aproximadamente 25% ante o nível atual de R$ 4,2.

A questão é saber se e quando essa desvalorização, que em boa parte tornou-se real pelo controle da inflação, vai levar à redução do déficit comercial de manufaturados.

Pessoa crê que isso vai ocorrer, porém mais pelo lado da substituição de importações do que pelo aumento das exportações, já que o economista vê o Brasil muito desconectado das cadeias globais de valor.

“Para mim, uma parte relevante da piora das transações correntes deve ser transitória”, ele diz, referindo-se à sua previsão sobre a balança comercial.

Outros analistas apontam também que recentemente está se cristalizando a percepção de um nível de câmbio duradouramente mais depreciado. Isso deriva de um modelo macroeconômico de juros bem mais baixos e de enfrentamento mais consistente do déficit fiscal estrutural (como a aprovação da reforma da Previdência), com menor pressão do setor público sobre a demanda agregada.

Um horizonte mais longo de real desvalorizado, fora do contexto de crise de balanço de pagamentos, pode, por sua vez, estimular mais investimentos no setor de bens comercializáveis internacionalmente, como a indústria manufatureira – algo que, se verdadeiro, também fará com que parte da atual deterioração das contas externas seja temporária, como projeta Pessoa.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/12/19, quinta-feira.

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