Os “menos piores”

Emergentes se beneficiam da rentabilidade mínima dos títulos dos países avançados.

Fernando Dantas

21 de outubro de 2016 | 19h02

O risco médio das nações emergentes medido pelo Embi+ está hoje num nível similar à média do período de boom entre 2004 e 2011, segundo cálculos de Bráulio Borges, economista-chefe da consultoria LCA. Curiosamente, em 2007 os emergentes em média detinham o grau de investimento das principais agências de rating, e, a partir do final de 2015, se tornaram em média risco especulativo (isto é, sem grau de investimento).

Borges nota que o aparente descompasso entre o risco dos emergentes hoje e suas condições econômicas – na comparação com o padrão de 2004 a 2011 – fica ainda mais agudo quando se considera que naquele período estas economias cresciam bem mais, as commodities tinham cotações muito mais elevadas e o comércio internacional expandia-se a velocidade muito maior.

A explicação, claro, está no ambiente de baixíssimos juros globais, que faz com que os grandes investidores busquem desesperadamente retornos positivos. Recente estudo do FMI mostra que, depois de um grande declínio entre a segunda metade de 2015 e o início de 2016, os fluxos de capital para os países emergentes voltaram a ficar positivos, o que é atribuído à percepção de que a postura superacomodatícia dos principais bancos centrais vai perdurar, à maior firmeza do preço das commodities e a sinais de estabilização de grandes países emergentes.

O mesmo trabalho mostra que as condições financeiras nos emergentes afrouxaram-se desde fevereiro, assim como houve melhoras nas bolsas e no mercado de crédito.

Tudo isso, naturalmente, está refletido nos ativos brasileiros, com a alta das ações, a valorização do real e a queda dos juros.    Borges nota que já conversou com alguns investidores que começam a trabalhar com um cenário muito otimista, pelo qual preveem um novo rally dos ativos brasileiros, sobretudo se o governo conseguir fazer “barba, cabelo e bigode” em termos de aprovação das reformas.

Nesta visão, já há quem especule sobre um câmbio abaixo de R$ 3 em 2017, o que, nas palavras do economista, seria “um atalho para a desinflação, o afrouxamento da Selic e para uma reversão cíclica da atividade econômica”. Borges ressalva que, pessoalmente, considera que tal cenário é de baixa probabilidade, mas não implausível.

Um possível obstáculo nesse róseo caminho de retomada – na esteira tanto do cenário internacional favorável quanto do sucesso político do governo em aprovar reformas – é a “boca de jacaré” que se abriu e vem aumentando entre os indicadores de confiança no futuro próximo e os dados da situação atual. Enquanto os primeiros continuam melhorando, os sinais concretos da atividade têm decepcionado, afetando negativamente as projeções do PIB do terceiro trimestre e do ano fechado.

Parece meio evidente que, se a situação presente continuar sistematicamente se recusando a corresponder à melhora das expectativas, em algum momento serão as expectativas que vão convergir em direção à dura realidade. O temor de alguns analistas, que tem esta preocupação, não é tanto de que haja uma nova recessão, mas sim de que a economia, ao encontrar o fundo do poço, de lá saia em ritmo extremamente vagaroso. Neste caso, o componente doméstico do otimismo poderia murchar, o que prejudicaria inclusive a capacidade de articulação do governo, com o risco de um novo círculo vicioso entre economia e política. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 17/10/16, segunda-feira.

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