Os obstáculos ao PIB

Versão mais longa da minha entrevista com Carlos Kawall, economista-chefe do Banco Safra, publicada no Estadão no dia 2/6/16, sobre o PIB do primeiro trimestre.

Fernando Dantas

07 Junho 2016 | 22h48

O PIB do primeiro trimestre de 2016, que recuou 0,3% ante o último trimestre de 2015, na comparação dessazonalizada, veio melhor que as projeções do Banco Safra. Carlos Kawall, economista-chefe da instituição, considera, no entanto, que o resultado não muda muito sua visão de novas quedas do PIB nos próximos dois trimestres, seguidas de uma recuperação lenta, com crescimento de apenas 0,5% em 2017. Alguma das razões principais para seu relativo pessimismo são os efeitos de um mercado de trabalho que ainda vai piorar e o penoso processo de desalavancagem financeira de empresas e famílias. A seguir, a entrevista:

 

Qual a sua análise do PIB do primeiro trimestre?

Nossa previsão era de uma queda de 0,9%, comparado ao trimestre anterior, dessazonalizado, um pouco além do consenso, de 0,8%. Foi melhor do que imaginávamos, e as melhoras foram quase generalizadas. A agropecuária, que tem pouco peso, veio melhor. A indústria registrou a maior diferença em relação à nossa previsão. Prevíamos recuo de 4,5%, mas ele foi de 1,1%. Dentro da indústria, a maior diferença em relação à nossa projeção foi da construção civil, mas ela também foi expressiva na indústria de transformação, que tem maior peso. A indústria no PIB veio muito descolada em relação à pesquisa mensal de produção industrial do IBGE. Em serviços, que tem o maior peso no PIB, tínhamos queda de 0,7%, mas ela veio em 0,2%. O destaque ficou para transportes e serviços de informação.

Como o sr. viu o PIB pela ótica de demanda?

Na parte de consumo das famílias, bateu com a nossa previsão de queda de 1,7%. O consumo do governo foi um pouco mais forte do que prevíamos, mas a grande diferença foi no investimento. Esperávamos queda de 4,9% e ela foi de 2,7%. O setor externo veio basicamente em linha com nossas projeções, mostrando contribuição positiva, como tem sido há vários trimestres.

Esse PIB acima das suas projeções significa que devemos ficar otimistas?

É claro que o quadro fica um pouco melhor, mas eu diria que é “menos ruim” do que a gente imaginava. Ainda estamos falando em queda do PIB, e esta é a quinta consecutiva. Desde o início de 2014, de nove trimestres, incluindo este último, sete tiveram contração, sendo este o quinto consecutivo. Nós ainda projetamos queda de PIB nos próximos dois trimestres. Com este número de hoje, avaliamos que o segundo trimestre terá queda de 0,9% e o terceiro, de 0,3%. Só no último trimestre haveria uma pequena expansão de 0,1%.

O resultado de hoje muda a previsão para este ano?

Devemos mudar de queda de 3,9% para queda de 3,7%. Começamos o ano com queda de 3,8%, fomos para 3,9%, agora voltamos para 3,7%, não muda muito o cenário. E é bom ter em mente estatísticas como os oito trimestres consecutivos de queda da indústria, cinco do setor de serviços, cinco do consumo das famílias. A formação bruta de capital fixo, o investimento, cai há dez trimestres, um número horrível.

A queda trimestral foi inferior às registradas em 2015, que foram todas acima de 1%. Isto significa que estamos mais próximos do fundo do poço?

Por definição, estamos sempre mais perto da hora em que vai melhorar. Mas, como mencionei, ainda acreditamos em dois trimestres negativos. Em termos da nossa visão do processo econômico daqui para a frente, tem uma componente de confiança que é fundamental. Na indústria, ela tem apresentado estabilidade e ligeira melhora, mas ainda com patamar muito baixo, perto dos pontos mais baixos da série histórica. Há uma evolução relativamente favorável dos estoques, um pouco mais ajustados, exceto duráveis. Mas ainda assim há motivos para que eu não acredite numa recuperação mais intensa e rápida da economia.

O sr. poderia detalhá-los?

Estamos vendo uma contração muito forte do consumo. Há três fatores que influenciam o consumo: a confiança, o nível de renda e o crédito. As duas últimas não estão dando sinais de melhora ao longo dos próximos dois ou três trimestres. Ainda projetamos uma piora do desemprego, cuja velocidade de alta está muito acentuada. A queda da população ocupada e do nível de renda, idem. A gente acha que o desemprego pode ir do patamar de 11,2% (Pnad do trimestre terminado em abril) para algo mais próximo de 13%, afetando a massa salarial. Isto não sugere uma recuperação mais rápida do consumo. Com relação ao crédito, os dados do Banco Central mostram uma tendência de o estoque de crédito zerar o crescimento. É algo que depende, é claro, da trajetória da política monetária. Achamos que tem queda da Selic a partir de agosto, mas demora a fazer efeito na economia.

O que a atual crise tem de diferente para que dure tanto e a recuperação seja tão lenta?

A economia entrou nesta crise muito mais alavancada do que em crises anteriores. Quem trabalha em banco vê que a situação agora é bem mais frágil do que em outras crises, por causa da combinação do grau de alavancagem com uma contração do PIB muito forte. As empresas estão alongando dívidas, tentando reescalonar pagamentos a credores, mas a situação patrimonial não melhora, por causa dos prejuízos, do fluxo de caixa. Os problemas não são resolvidos no curto prazo. E note que esta crise já é bem mais prolongada. Estamos falando de cinco trimestres de queda do PIB. Desde o início de 2014, sete trimestres de contração e só dois de expansão, e estes dois em 2014. O investimento cai há dez trimestres.

Qual a projeção de crescimento em 2017?

É de 0,5%. Para 2016, não tem muita diferença entre o que os economistas estão prevendo. Já em 2017, o consenso está em 0,55%, mas há quem fale em 1,5% e 2%, dentro da ideia de recuperação da confiança. Mas o que eu penso é que crises de alavancagem, como se vê por todo o debate da crise financeira lá fora, têm recuperação mais lenta. Minha percepção é que teremos que digerir ainda essa desalavancagem até conseguirmos uma recuperação um pouco mais robusta.

Para não falar na questão do ajuste fiscal.

Sim, sem dúvida. A nossa projeção aqui é de que haja um ajuste do saldo primário de um ponto porcentual do PIB em 2017, em relação a 2016. Seria um déficit de 2,5% do PIB este ano e de 1,5% no próximo. Isso tem um efeito contracionista na economia. É, evidentemente, necessário, porque faz parte do ajuste fiscal. Isto tem, no primeiro momento, um efeito de contenção de demanda, mas ajuda na confiança e na queda da taxa de juros. Estamos até com uma projeção de queda da Selic mais agressiva no ano que vem, para 10% no final de 2017 – este ano cai para 12,75%. Tem gente com PIB mais forte no próximo ano, e com juro maior. Nós temos um indicador de condições financeira, que combina vários fatores – concessões de crédito, empréstimos do BNDES, indicadores como bolsa, etc. Ele sugere que as condições financeiras estão muito apertadas, contribuindo para que a economia ainda caia em dois trimestres e depois tenha uma recuperação relativamente mais lenta.

E em 2018?

Aí achamos que pode crescer 2%, inclusive com o juro bem mais baixo, que também faz parte da solução para o problema da desalavancagem.

Faz sentido pensar que nossa recuperação pode ser “puxada” pelo setor externo?

Desde o primeiro trimestre do ano passado, a contribuição do setor externo é positiva, primeiro com queda muito forte das importações, mas agora também com um crescimento mais significativo das exportações. Os dados de quantum da Funcex mostram alta bastante significativa das exportações. Mas não há como a recuperação ser puxada pelas exportações, porque elas não têm o poder de arrastar o resto da economia. Por outro lado, o setor externo mitiga a tragédia da absorção doméstica. Nós estaríamos falando este ano de uma queda de PIB quase 5% se não fosse o setor externo. Mas daí a liderar o crescimento não dá, porque o rabo não consegue abanar o cachorro. (Fernando Dantas – fernando.dantas@estadao.com)