Os otimistas da inflação

Corrente que inclui Bradesco e Itaú vê progresso no front inflacionário, mas à custa da profunda recessão.

Fernando Dantas

29 de março de 2016 | 17h53

O IPCA-15 de 0,43% em março, que veio abaixo do intervalo de expectativas do mercado, reforçou as apostas da corrente do mercado que vê a inflação entrando nos eixos do sistema de metas neste ano e no próximo. São instituições que consideram bem possível que os objetivos do Banco Central (BC) – conter o IPCA dentro do limite máximo de 6,5% do intervalo de tolerância do sistema de metas em 2015, e fazê-lo se aproximar significativamente da meta de 4,5% em 2017 – sejam atingidos ou que pelo menos haja uma aproximação significativa deles (como IPCA de 7% ou menos em 2016). Neste grupo estão os departamentos de pesquisa econômica dos dois maiores bancos privados, Bradesco e Itaú-Unibanco.

Octavio de Barros, economista-chefe do Bradesco, diz que “olhando por dentro o IPCA-15, que veio bem abaixo das expectativas, fica claro que o hiato (do produto) já começou a fazer seu efeito, sobretudo no setor de serviços”. A expectativa é de um IPCA fechado no mês de março em torno de 0,5%, ou até menos.

Em relação aos preços administrados, a previsão do Bradesco é de apenas 5,5% em 2016.

Barros ressalva que, em abril, haverá uma forte pressão de farmacêuticos e alguma pressão de alimentos in natura, por conta das chuvas excessivas. “Mas na sequência a inflação cairá bem”, acrescenta.

O economista-chefe do Bradesco vê possibilidade crescente de a inflação este ano não ultrapassar o teto de tolerância, e de que fique bem próxima dos 4,5% em 2017.

Desta forma, prevê quatro reduções da Selic este ano, que a levariam do atual nível de 14,25% para 12,25%. Em 2017, a taxa básica cairia para 10,25% ou até menos.

Barros acrescenta que “é claro que nosso cenário de taxa de câmbio contribui para essa leitura – estamos trabalhando com um câmbio de final de ano de R$ 3,65.

O Itaú-Unibanco, por sua vez, projeta IPCA de 7% em 2016, com chance de ser um pouco mais baixo, e de 5% em 2017.

Felipe Monteiro de Salles, economista do Itaú-Unibanco, nota inicialmente a forte desaceleração dos preços administrados, que atingiram 18% em 2015 e, este ano, na projeção da instituição, devem cair para 6,2%. Contribuem para isso a energia, cuja variação de preço pode ser de zero ou negativa; e a gasolina, que permanece bem acima do preço internacional, não havendo motivo, portanto, para elevá-la.

Em relação aos preços livres, a notícias principal é que finalmente os serviços estão reagindo à piora do mercado de trabalho. A inflação de doze meses dos serviços no IPCA-15 de março foi de 7,8%, ante 8,34% em dezembro de 2015 e 8,35% em dezembro de 2014.

Salles observa que muitos analistas estranharam a resistência até pouco tempo da inflação dos serviços ante um PIB que vem despencando, mas ele argumenta que o indicador decisivo é o mercado de trabalho, e o desemprego ainda estava muito baixo no final de 2014. “Começou a subir em 2015 e é normal que os efeitos nos serviços só estejam acontecendo agora”.

A projeção do Itaú-Unibanco é de que a inflação de serviços fique em 7,3% em 2016. “Ela cai devagarzinho por causa da inércia muito forte – aliás, a inércia não puxa para cima a inflação, apenas impede que ela caia mais rápido”, diz o economista.

A inflação dos bens industriais depende do câmbio e a da alimentação no domicílio do clima e do câmbio, acrescenta Salles. Ele acha que, pelas defasagens normais, a desvalorização do ano passado ainda impacta os bens industriais, que vieram fortes no IPCA-15 de março, mas a revalorização parcial este ano pode ter efeitos favoráveis mais adiante se permanecer. Da mesma forma, pode ajudar na alimentação, junto com uma possível normalização do clima após as fortes chuvas neste início de ano. Aliás, o Itaú-Unibanco ainda mantém uma projeção de dólar a R$ 4,35 no final deste ano. O banco prevê três quedas de 0,5 ponto porcentual da Selic a partir de agosto, que a levarão para 12,75% ao fim de 2016. Em 2017 a taxa básica terminaria o ano em 10,5%.

Outro representante da linha otimista com a inflação é Alexandre Ázara, economista-chefe da gestora Mauá Capital. “Os serviços surpreendem para baixos há dois meses, e acho que talvez o IPCA este ano possa até ficar abaixo de 6,5%”, ele diz. Ázara adiciona que “na pior das hipóteses será 7%, e com muita certeza ficará abaixo disto – o mais provável é 6,5%, mas com viés de baixa”.

Ele considera que o seu cenário “é uma ‘boa má notícia’, porque trata-se do hiato agindo sobre os preços, e teremos uma queda de oito pontos do PIB apenas para que a inflação fique em torno de 6,5%, o teto de tolerância”.

O economista diz ainda que o seu cenário é de câmbio a R$ 3,6 no final do ano, mas que há uma situação binária: “O câmbio sem impeachment é R$ 3,9 e o com impeachment é R$ 3,3”. Como ele ainda vê o fim precoce do governo da presidente Dilma Rousseff como a hipótese mais provável, é possível que um câmbio ainda mais favorável dê ajuda adicional à política monetária. Para 2017, sua previsão é de IPCA de 5%. Ázara também prevê que as projeções do Focus devem começar a cair rapidamente para 7%, no caso de 2016, e para 5,5%, para 2017.

Quanto à política monetária, o economista acha que o BC sinalizou fortemente que não pensa em queda agora. Assim, ele acha mais provável que cortes da Selic comecem em outubro, possivelmente depois do Relatório Trimestral de Inflação (RTI) de setembro indicar IPCA abaixo de 4,5% em 2017 no modelo do BC. Ele vê Selic no final de 2017 em torno de 11%. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 23/3/16, quarta-feira.