Os riscos da normalidade

Nova estratégia da política econômica parece querer baixar tensão, mas não comprar brigas hoje pode ser uma aposta arriscada.

Fernando Dantas

13 de janeiro de 2016 | 20h02

Um interlocutor do Ministério da Fazenda disse há poucos dias, segundo reportagem de O Globo, que “o governo precisa de um choque de normalidade”. Esta expressão parece ser uma boa tradução da nova fase da política econômica, com a entrada de Nelson Barbosa na Fazenda. O novo ministro parece ter a intenção de baixar o grau de tensão que tomou conta do País em 2015. Na esfera econômica, este estado permanente de nervos à flor da pele derivou em parte do embate entre o ex-ministro Joaquim Levy, com sua permanente exigência de medidas duras no front fiscal, e políticos e grupos de pressão que naturalmente resistem a estas ações.

É questionável se a palavra “normalidade” pode ser aplicada a uma economia projetada para cair 3% no ano (depois de já ter despencado quase 4%) e registrar uma inflação de 7% ou mais, com desemprego em alta e a provável perda do seu terceiro grau de investimento. Ainda assim, comparado com o choque de 2015, quando o Brasil se viu engolfado por uma crise econômica de dimensão que ninguém previra, 2016 pode em teoria ser o ano de uma difícil, porém previsível, travessia. A normalidade aqui pode ser entendida como a tentativa de encerrar a fase de surtos de pânico nos mercados, caos político e conflitos dentro da equipe econômica.

Faz sentido, portanto, que Barbosa e seus auxiliares venham sinalizando que não há coelhos a tirar da cartola, e que não haverá pacotes ou medidas de grande impacto para tentar interromper a queda da economia.

Um recente interlocutor do governo relatou à coluna que a equipe econômica rejeita a ideia de usar as reservas internacionais para impulsionar a economia – o que é um tanto óbvio, já que se trata de plano sem pé nem cabeça –, mas também, mais significativamente, que considerou o plano de renovação de frota apresentado pela indústria automobilística muito mal feito. Oficialmente, a Fazenda se comprometeu a avaliar as propostas, mas alertou que não há espaço para projetos com subsídios ou equalizações.

Dentro da mesma lógica da “normalidade”, um ciclo moderado de alta da Selic a partir da reunião do Copom da próxima semana, que parece ter suporte da Fazenda e do Planalto, é uma forma de negar por meio de uma ação concreta a hipótese da dominância fiscal – que seria o estado mais forte da anormalidade monetária, quando os efeitos da política do Banco Central invertem seus sinais.

Um conhecido economista do mercado financeiro traça o que seria um cenário de normalidade para o ano em termos de política monetária. O BC faz agora um ciclo de aperto de no mínimo 100 pontos-base, e dificilmente de mais de 150. O dólar fecha o ano em torno de R$ 4,20. A inflação em 2016 ainda assim fica acima de 6,5%, ou até mesmo de 7%, a depender de se introduzir a Cide. Por outro lado, caminha-se para uma inflação em torno de 5% em 2017, e o BC já consegue começar a reduzir a Selic no final deste ano.

Este cenário, porém, como o próprio analista acrescenta, não leva em conta “toda a pólvora” que existe acumulada na área política. Para começar, existe a pressão da esquerda petista pela ruptura da atual política econômica. Além disso, quando o Congresso voltar a se reunir, acaba a relativa trégua política, com uma série de conflitos e decisões potencialmente explosivos pela frente: o futuro de Eduardo Cunha, a continuidade da Lava-Jato com as suas repercussões, o desfecho dos conflitos do PMDB, o prosseguimento do processo de impeachment, a apreciação das contas de Dilma pelo Congresso, o veredito do TSE sobre a impugnação da chapa presidencial, as manifestações de rua, etc.

Na coluna passada, escrevi que a menor chance de impeachment na percepção atual, comparada aos piores momentos de 2015, é um possível fator positivo para Barbosa. Mas é bom enfatizar o “possível”. As chances de que a situação política evolua novamente numa direção ruim para o governo tampouco é desprezível.

Somando-se a isso um cenário internacional volátil, com muitas incertezas sobre China, Estados Unidos e commodities, não dá para descartar a priori a possibilidade de novos surtos intensos de “anormalidade”, com rodadas de estresse dos mercados que poderiam levar o dólar para perto de R$ 5. Neste caso, toda a aposta em restaurar uma certa normalidade e reduzir tensões iria para o ar, e o governo teria de lidar com mais uma elevação do grau de gravidade da crise, e com suas consequências devastadoras.

Uma forma de minimizar esse risco seria o governo atacar com o máximo de energia política possível a agenda de reformas e de redução do gasto obrigatório. Mas, para isso, seria necessário a disposição de comprar brigas, e especialmente de enfrentar a esquerda do PT. Em outras palavras, haveria bem menos espaço para reduzir o grau de tensão política neste momento. A alternativa, mais apaziguadora de ânimos a curtíssimo prazo, é “tocar com a barriga” a continuidade da política econômica, evitando as questões mais espinhosas, e torcendo para que nada dê muito errado nos fronts político e internacional. É uma aposta como qualquer outra, mas já foi perdida no passado recente. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 12/1/15, terça-feira.

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