Os riscos de apostar só na demanda

Fernando Dantas

29 de junho de 2012 | 14h00

Este artigo foi publicado na AE-News Broadcast em 6/6/2012.

A divulgação recente do PIB no primeiro trimestre, como crescimento de apenas 0,2% ante o trimestre anterior (na série dessazonalizada), e de 0,8% na comparação com os três primeiros meses de 2011, talvez venha a ser considerada um divisor de águas na percepção sobre o Brasil. É claro que esta é uma previsão arriscada, mas a sensação logo depois da notícia é de que se instalou novamente um pessimismo razoavelmente generalizado sobre a capacidade de
crescimento do País.
 
Se a economia acelerar fortemente no segundo semestre, como prevê o governo, e, a partir de 2013, a expansão do PIB retomar um ritmo de 4% ou mais por vários anos, os pessimistas mais uma vez terão sido desmentidos. A fotografia do momento, entretanto, indica que eles estão dando o tom do debate.
 
O que preocupa particularmente é que a economia continua andando de lado apesar do agressivo ciclo de afrouxamento monetário pelo Banco Central e de diversas medidas que já foram tomadas pelo governo para estimular o consumo e o investimento.
 
A discussão sobre as causas da atual letargia é ampla e diversificada. Uma dicotomia inicial é entre a ênfase na demanda e na oferta. No primeiro caso, a causa básica é a retração dos consumidores em alguns setores-chaves, como automóveis e outros bens duráveis, que pode ser derivada da sensação de excessivo endividamento; e de empresários, que seguram investimentos ao enxergar à frente um consumo mais lento e condições econômicas complicadas por causa das nuvens cada vez mais pesadas no cenário internacional.
 
O governo, sem dúvida, acredita que o problema é essencialmente de demanda, e sua receita é redobrar as medidas de estímulo monetário, creditício e fiscal a consumidores e empresários.
 
Uma segunda corrente vem crescentemente apontando para os problemas de oferta. A lista aqui é grande, mas os itens que são martelados com mais insistência são carga tributária elevada e excessivamente complexa, predomínio dos gastos correntes nas despesas do governo, infraestrutura precária e escassez de mão de obra qualificada (tema ligado à péssima qualidade de educação).
 
Uma visão comum é de que esses gargalos da oferta limitam o crescimento potencial do Brasil. Assim, sempre que a economia se aquece, as limitações pelo lado da oferta provocam inflação ou excessiva deterioração das contas externas, obrigando o Banco Central a pisar no freio dos juros.
 
A recente dificuldade em se retomar o ritmo de atividade, porém, acrescentou um novo ingrediente ao debate. Alguns economistas, como Silvia Matos, do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre), acham que há um problema sério com a produtividade brasileira, e que isso pode estar prejudicando os investimentos e, por consequência, o crescimento.
 
Assim, o ritmo lento não estaria sendo ditado pelo freio do Banco Central (que, pelo contrário, continua aprofundando o ciclo de relaxamento), mas sim pela retração da demanda ligada aos investimentos. Esta inibição, por sua vez, estaria ligada à queda da produtividade, que reduz a rentabilidade dos projetos.
 
Uma leitura parecida, e complementar, é de que o problema básico está na conjunção entre a alta do custo unitário de trabalho, associada a um setor de serviços ainda aquecido, e o mau desempenho da produtividade, especialmente na indústria. Esta combinação, obviamente, é extremamente prejudicial à competitividade.
 
Num passo à frente, o economista Samuel Pessôa, sócio da consultoria Tendências e pesquisador associado do Ibre, acha que a queda de produtividade recente pode ser, em parte, o efeito retardado da mudança de política econômica em 2006, quando Antônio Palocci foi substituído por Guido Mantega no Ministério da Fazenda.
 
Nesta visão, a maré crescente de intervencionismo, dirigismo e protecionismo estaria criando distorções prejudiciais à produtividade (também afetada pelo encolhimento relativo da indústria, que é em média mais produtiva que os serviços).
 
É prematuro decretar que a mudança de política econômica comprometeu o dinamismo da economia brasileira. O próprio Pessôa reconhece que a sua hipótese ainda é uma especulação, difícil de comprovar (o que não significa que ele não acredite nela).
 
Além disso, é impossível ignorar que a deterioração crescente das perspectivas dos países ricos, e especialmente da Europa, está afetando a confiança de empresários e consumidores no mundo inteiro, e levando a uma desaceleração sincronizada que inclui todos os Brics.
 
De qualquer forma, diante da incerteza, o mais prudente é se cercar contra todos os riscos. Apostar apenas numa política de demanda, e ignorar a complexidade do desafio pelo lado da oferta, pode levar o País a um beco sem saída, caso a munição de estímulos se esgote sem que a economia tenha retomado um ritmo satisfatório.
 
Talvez seja melhor equilibrar os incentivos ao consumo e ao investimento de setores específicos com a retomada de uma agenda mais sistêmica de aumento a produtividade e redução do custo Brasil.

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