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Os sinais do varejo

No conceito restrito, as vendas de varejo de setembro vieram abaixo da mediana das projeções. Entre as possíveis razões, há elementos menos e mais preocupantes.

Fernando Dantas

13 de novembro de 2020 | 19h13

O varejo restrito na PMC de setembro veio abaixo da mediana das Projeções Broadcast, levantando alguma dúvida sobre o vigor da atual recuperação pós auge da Covid. Nas últimas divulgações, as surpresas tinham sido positivas.

Existem dois fatores possíveis em jogo na análise do varejo, como explica Luana Miranda, economista do Ibre/FGV, focada em atividade econômica. A questão é saber quanto há de um e quanto de outro.

O primeiro é um refluxo normal do indicador depois de uma elevação atípica, que o levou a níveis bem mais altos do que os do ano passado na comparação mês contra mês a partir de junho. A razão, claro, são os programas de apoio a famílias e empresas durante a pandemia, com destaque para o gigantesco auxílio emergencial.

O segundo possível fator, que talvez já tenha surgido em setembro (não é certo), seria um recuo maior do consumo induzido por um temor mais agudo do fim dos auxílios e dos programas de apoio ao emprego da pandemia, num contexto de incerteza sobre a retomada do mercado de trabalho; a corrosão da renda real pela inflação mais alta que o esperado, especialmente na baixa renda; e a transmissão da incerteza fiscal para o câmbio, os juros, e levando a  um clima geral de pessimismo.

Em junho, julho, agosto e setembro, o varejo restrito cresceu, respectivamente, em relação aos mesmos meses de 2019, 0,6%, 5,5%, 6,2% e 7,3%. Antes, obviamente, nos meses do auge da pandemia, houve grandes recuos, com o pior resultado sendo o de abril, com -17,1%.

O boom do varejo restrito a partir de junho deu-se sobretudo em itens como alimentos e móveis e utensílios domésticos (elétricos e eletrônicos).

Como comenta Silvio Campos Neto, economista da consultoria Tendências, “o auxílio emergencial é disponibilização de dezenas de bilhões para consumo na veia, indo para um grupo de classe baixa ou média baixa que tem grande propensão a consumir, e gasta o benefício quase na totalidade”.

A questão é que o auxílio já caiu pela metade e está previsto para deixar de existir a partir de janeiro. Não só a expectativa de que o benefício vai acabar como também o fato de que já foi reduzido já fazem esse consumidor colocar o pé no freio.

Além de não dar para pensar que o varejo restrito vai continuar a subir a taxas chinesas nas comparações mês contra mês do ano anterior, a perder de vista.

Isso se reflete no fato de que o crescimento do varejo restrito contra o mês anterior, na série dessazonalizada, freou de forma mais brusca. Entre julho e agosto, o avanço foi de 3,1%; entre agosto e setembro, 0,6%.

Para outubro, nessa base de comparação, a projeção do Ibre ainda está ligeiramente no terreno positivo, em 0,2%. Mas Luana acrescenta que pode haver leitura mensal negativa no último trimestre.

Na verdade, como coloca a economista, a redução e contagem regressiva dos auxílios já estavam no mapa e apontavam uma desaceleração do varejo, mas, vinda em setembro, ela chegou um pouco antes do esperado.

O varejo ampliado, que inclui veículos e materiais de construção, também veio abaixo da mediana do Projeções Broadcast, mas mais em linha com a previsão do Ibre, segundo Luana. Ela nota que esse segundo indicador é mais importante do ponto de vista do PIB, e por isso a previsão de recuo de 5,1% do PIB em 2020 (+3,5% em 2021) está mantida.

Segundo Campos Neto, da Tendências, “a situação de curto prazo ainda é favorável, mas há muitas pontas soltas em termos do impacto do fim dos auxílios, da evolução do mercado de trabalho e do impasse fiscal”.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 11/11/2020, quarta-feira.

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