Os tempos da economia e da política

É normal que política e economia preservem a autonomia própria das diferentes esferas da ação humana que representam. Mas a cisão radical entre o tempo da economia e o da política, que hoje ocorre no Brasil, é bastante perigosa.

Fernando Dantas

21 Junho 2017 | 11h08

É quase um lugar comum dizer que o tempo da economia e o tempo da política são diferentes. Isso significa que, especialmente em democracias, não se pode exigir dos políticos que cumpram à risca o cronograma planejado pelos tecnocratas das equipes econômicas.

No Brasil atual, entretanto, o tempo da economia e o da política se encontram em cisão radical, o que é uma situação bem diferente. Em tempos normais, embora cada uma dessas esferas da ação humana tenha os seus próprios códigos, ritmos e ritos, os atores econômicos sensibilizam os atores políticos e vice-versa. Mas hoje o País assiste a um conflito institucional tão virulento que a economia, numa das fases mais negras da sua história, parece ter saído completamente do mapa mental dos políticos.

Um respeitado e arguto observador da cena nacional, que já ocupou cargo no governo, assusta-se com o fato de que os titulares dos mais elevados postos da hierarquia de poder no Brasil – da cúpula do Congresso ao Supremo, passando pelo Ministério Público e incluindo a presidência da República – perderam quase completamente o pudor institucional associado à dignidade teórica que investe suas funções: acusações pesadíssimas e xingamentos são publicamente lançados por uns contra outros, numa barafunda estridente em que fica difícil demarcar claramente quais são as posições em conflito.

Nessa guerra de foice em quarto escuro, talvez motivada pelo fato de que tantas cabeças coroadas hoje se veem ameaçadas até de prisão, os participantes estão tão tomados pelas emoções tumultuosas do conflito que quaisquer outras preocupações se tornam, em termos comparativos, menos relevantes. E nesse resto “menos importante”, empurrado para fora do palco, está também a economia, que vive uma encruzilhada dramática.

A grande ameaça é que, após a pior recessão em um século, sobrevenha a estagnação, e não a retomada. Projeções de algumas instituições, como o Ibre-FGV, começam a delinear, sob a superfície de previsões de crescimento este ano que não mudaram muito (em torno de 0,5%, ou pouco menos), uma dinâmica bem distinta da atividade. 2017 já não termina com a economia em aceleração para um 2018 de retomada indiscutível, mas sim num quase ponto morto que pode levar a mais um ano letárgico.

Os riscos políticos desse cenário são elevados. O desemprego está nos maiores níveis desde o início da década de 80, disparadamente, e o descrédito dos políticos de todas as colorações partidárias também se situa no zênite. Como alertou ontem neste espaço o cientista político Fernando Abrucio, aumentam as chances em 2018 dos candidatos populistas que consigam se pintar com as cores da “antipolítica”. Esse desfecho, por sua vez, dificilmente leva à estabilidade institucional em que uma agenda de reformas necessariamente longa e laboriosa possa ser levada a cabo com sucesso.

O mais angustiante, entretanto, é que a estagnação não é inevitável. A economia brasileira continua a emitir sinais contraditórios, típicos do lusco-fusco entre recessões e retomadas. A sucessão de crises políticas explosivas revelou uma resiliência até certo ponto surpreendente de alguns fundamentos, como o setor externo. Nas engrenagens discretas da economia real, o círculo virtuoso de queda da inflação e dos juros e o lento processo de desalavancagem de famílias e empresas já começam a render os primeiros tênues e intermitentes sinais de saída do sufoco.

É o momento, portanto, em que todo empurrão e toda notícia positiva podem fazer a diferença para que a economia deslanche. O reenquadramento mínimo da questão fiscal de médio prazo, por exemplo, poderia vir de algum tipo de acordo que permitisse aprovar pontos vitais e relevantes da reforma da Previdência. A retomada de um ritmo razoável na agenda microeconômica do governo, das concessões à lei de falências, também poderia ajudar.

O que se vê, contudo, é um governo quase paralisado, no qual o tempo da política ocupou todos os espaços e o tempo da economia é ignorado. A impressão é de que longos 18 meses terão que passar até que haja alguma chance, mas não garantia, de que os gravíssimos problemas econômicos do Brasil serão enfrentados com o vigor e a mobilização necessários. É um teste longo e arriscado demais da complacência internacional. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 20/6/17, terça-feira.