Os tucanos e o ajuste fiscal do PT

Já há, entre os quadros mais técnicos do PSDB, quem defenda o voto contra o ajuste fiscal de Levy e Barbosa - uma postura que antes era basicamente dos quadros políticos.

Fernando Dantas

29 Maio 2015 | 00h08

Causou impacto entre economistas ligados direta ou indiretamente ao PSDB a declarações recentes de Edmar Bacha, na qual o respeitado economista e “pai” do plano Real justifica os votos tucanos unanimemente contrários a medidas do ajuste fiscal patrocinadas pelo ministro da Fazenda, Joaquim Levy, e pelo ministro do Planejamento, Nelson Barbosa.

O curioso é que, pela primeira vez em décadas, pensadores de perfil eminentemente técnico ligados aos tucanos parecem concordar com os políticos do partido em que o PSDB deve negar os votos para um ajuste de recorte ortodoxo, de tal forma a tornar a vida do PT a mais difícil possível. Embora haja muitos economistas liberais que discordam desta tese, Bacha definitivamente não está só na sua postura mais belicosa em relação ao adversário histórico.

Na entrevista ao jornalista Cristian Klein do jornal Valor Econômico, Bacha esforçou-se para que sua visão fosse além de um “quanto pior, melhor” simplista. Ele argumentou que o eleitorado espera do PSDB uma postura oposicionista, que técnicos não podem dar a linha política para políticos profissionais e que os tucanos não podem dar apoio a “uma meia guinada” na política econômica sem reconhecimento dos erros do passado por parte do PT.

Alguns economistas do campo ortodoxo com quem este colunista conversou ficaram chocados com a abordagem de Bacha. Para eles, o PSDB arrisca-se a se transformar num “novo PT” se votar em desacordo com os seus programas e as posições defendidas enquanto esteve no governo. “É o fim da picada”, disse um deles.

Mas nem todas as reações foram desfavoráveis. Dois prestigiados economistas de formação liberal e ortodoxa tiveram nos últimos dias um intenso diálogo sobre a questão de como o PSDB deve se comportar na atual conjuntura, levando em conta fatores econômicos e políticos. O primeiro deles defende a coerência com as posições históricas do partido, o que deveria levar ao apoio às medidas de ajuste fiscal. Mas, por outro lado, reconhece que a equação política é complexa, pois dar aval ao ajuste significa ajudar o PT.

Seu colega, porém, defende uma postura muito mais aguerrida, e vai além da argumentação de Bacha para justificar um oposicionismo enérgico do PSDB em relação ao governo da presidente Dilma.

Em relação especificamente à questão do fator previdenciário – que, com votos do PSDB, cujo governo o criou, está agora sob ameaça no Congresso –, ele nota que trabalhadores do setor formal que se aposentam por tempo de serviço contribuem o suficiente (incluindo o recolhimento das empresas) para fazer jus às aposentadorias que recebem. Assim, o populismo a ser combatido seria o de que estes trabalhadores formais acabam financiando aqueles que recebem benefícios previdenciários e sociais sem contribuir, como os aposentados rurais e os beneficiários do LOAS (como idosos pobres).

Nessa visão, o trabalhador formal do INSS que reclama do fator previdenciário não é o vilão do déficit, mas sim quem recebe sem contribuir ou contribuindo desproporcionalmente ao benefício.

Esse exemplo remete a uma discussão mais ampla do que o fator previdenciário propriamente dito.  No fundo, o ponto é que os anos de hegemonia petista teriam cristalizado uma visão leniente com o populismo e pela qual o ímpeto de distribuir benefícios coloca permanentemente em risco o equilíbrio fiscal e as bases para um crescimento econômico mais satisfatório. Nesse contexto, o ajuste de Levy e Barbosa é apenas um “remendo” que não coloca em questão as bases mais profundas do desajuste estrutural.

Segundo essa análise, o País só caminhará na direção de um arcabouço econômico sustentável quando ficar claro que o atual não é sustentável. E, dessa forma, o PSDB está certo em exercer uma oposição implacável que obrigará o PT a assumir a total paternidade da sua tentativa de ajuste, desnudando aos olhos da população a contradição entre o discurso populista do partido e as medidas verdadeiramente necessárias para fazer o Brasil retomar o crescimento sustentável.

Esse é um debate que está no ar entre a vasta tecnocracia pró-tucana, e que deve se acirrar à medida que a atual crise econômica, política e social se torne mais aguda. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 26/5/15, terça-feira