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Otimismo com insegurança

Fernando Dantas

21 de janeiro de 2015 | 23h21

Davos – Nos primeiros painéis da manhã de abertura do Fórum Econômico Mundial de Davos, sinais de certo otimismo misturaram-se a uma sensação de insegurança de empresários e investidores, derivada da natureza muito ampla e pouco mapeada dos riscos globais.

A queda pela metade – totalmente inesperada – do preço do petróleo; o fato de os principais bancos centrais do mundo estarem entrando em rota de divergência (contração monetária nos Estados Unidos, mais expansão na zona do euro e no Japão); os muitos riscos geopolíticos; e até solavancos inesperados, como a repentina supervalorização do franco suíço na semana passada, na esteira da decisão do BC do país de acabar com o limite à apreciação – todos esses são fatores que trazem incerteza à elite global reunida em Davos. Alguns deles são até positivos, como o petróleo barato, mas a forma drástica e imprevisível como ocorreu reforça o sentimento de cautela dos investidores.

No lado positivo, o principal fato é a recuperação da economia norte-americana, que está firmemente sustentada, como observou Anshu Jain, co-ceo do Deustche Bank, por diversos fatores: tecnologia, juros reduzidos, “shale gas” e a demanda dos consumidores, ainda mais fortalecida pela queda do preço do petróleo.

Segundo Anthony Scaramucci, fundador e sócio-gerente do hedge fund SkyBridge Capital, as empresas do S&P 500 estão sentadas num pilha de mais de US$ 2 trilhões em cash, e uma surpresa positiva pode ser a de que esses recursos comecem a ser investidos à medida que prossiga a recuperação da economia dos Estados Unidos, com a elevação da taxa básica e estrutura de capital normalizada.

Os riscos, porém, são numerosos e alguns dos principais têm natureza pouco conhecida. Para Scaramucci, uma característica da economia contemporânea que deve perdurar é a de que os governos nacionais tem intervido fortemente, gerando volatilidade nos mercados. Assim, cada país atua com as armas que têm: os Estados Unidos com seu poder financeiro e militar, a Arábia Saudita com petróleo, e assim por diante.

O brasileiro André Esteves, principal executivo do BTG Pactual, acha que o maior risco atual para economia global deriva do nível sem precedentes das políticas econômicas – especialmente monetárias – não convencionais praticadas pelos países ricos. Ele notou que os bancos centrais das maiores economias do mundo praticaram ou praticam o chamado “afrouxamento quantitativo” (expansão da liquidez via aquisição de títulos em poder do mercado), inclusive com o Banco Central Europeu (BCE) na iminência de anunciar uma rodada, cujos detalhes serão conhecidos ainda esta semana.

Além disso, boa parte do G-7 está com juros em praticamente zero, sendo que esta situação já dura há cinco anos nos Estados Unidos. Esteves se mostrou preocupado com efeito dessas políticas monetárias superagressivas sobre o valor dos ativos.

Zhou Xiaochuan, presidente do Banco do Povo da China (banco central) notou que o suporte intenso dado pelos bancos centrais às economias dos seus países (ou região, no caso do BCE) deveria ser usado apenas criar espaço para reformas estruturais que de fato alicercem o crescimento em bases sustentadas – uma observação comum a vários debatedores em painéis desta manhã em Davos. Já Liu MingKang, do Instituto Global Fung, de Hong Kong, alertou que historicamente sempre que os Estados Unidos iniciam um movimento de alta dos juros básicos, isto provoca grandes fluxos de capital e rotação de riscos na economia global.

Outro ponto enfatizado por lideranças do setor bancário como Brian Moynihan, chairmam e CEO do Bank of America, Jain (do Deutsche Bank) e Esteves foi que a nova disciplina regulatória imposta globalmente aos bancos depois da crise mundial tornou o fornecimento de liquidez pelo setor privado bancário muito caro e até inviável. “Esse risco de liquidez pode potencializar uma nova onda de aversão ao risco”, comentou Esteves. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

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