Otimismo moderado

No mercado financeiro, uma forte corrente aposta que PEC do limite de gasto será aprovada sem alterações que a descaracterizem fortemente. Enquanto isso, mercado internacional volta a se relaxar, após soluço provocado por interpretação de que principais BCs poderiam endurecer (estes, porém, voltaram a dar sinais e tomar decisões favoráveis à manutenção da alta liquidez internacional).

Fernando Dantas

22 Setembro 2016 | 11h28

O mercado financeiro segue em sua postura de moderado otimismo com o Brasil, à medida que vão se esvaindo os efeitos do soluço recente na maré de liquidez internacional. Internamente, há a percepção de que são razoáveis as chances de que a PEC do limite de gastos seja aprovada na Câmara sem modificações que a descaracterizem fundamentalmente. Dessa forma, é possível que os astros estejam se alinhando de forma a preencher suficientes condições do Banco Central para que este inicie o ciclo de redução da Selic, cujo passo inicial poderia se dar na reunião do Copom de outubro ou na de novembro.

A se confirmar essa hipótese, o governo Temer teria chances de chegar ao seu primeiro Réveillon num clima político e econômico relativamente distendido, comparado ao massacre dos nervos que tomou conta do País desde o início do segundo mandato da ex-presidente Dilma Rousseff.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, nota que as coletas mostram que a inflação corrente está vindo mais baixa, especialmente no crucial setor de alimentação. Nos últimos dias, há até o registro de uma pequena deflação em 30 dias dos alimentos in natura. No caso do leite, a alta recente foi zerada.

O economista tem a perspectiva de que, até a reunião do Copom de 18 e 19 de outubro, a PEC do limite de gastos possa ter sido aprovada em comissões ou até mesmo no plenário da Câmara. Outros profissionais do mercado também ficaram animados com as notícias na imprensa de que Temer está reorganizando a sua comunicação, já que “vender” bem para a população as medidas do ajuste fiscal – a PEC e a reforma da Previdência – é visto como fundamental para a sua aprovação.

Da mesma forma, o adiamento da reforma trabalhista, e o foco claro na PEC dos gastos – a reforma da Previdência colocada como um segundo passo – também agradou. Um analista chegou a comentar que a entrada e saída da reforma trabalhista na agenda do governo pode ter sido uma tática de “bode na sala”.

De qualquer forma, Rocha observa que duas das três pré-condições do relaxamento monetário estipuladas pelo BC poderiam estar bem encaminhadas em outubro: o avanço da agenda fiscal e a limitação do choque do preço de alimentos. Ele pessoalmente acha que o Copom deve manter a Selic em 14,25% em outubro, mas sinalizar com o comunicado e a ata uma boa probabilidade de corte em novembro. Há colegas na JGP, ressalva Rocha, que creem num corte já em outubro.

O Banco Central, na verdade, ao enfatizar o papel do julgamento subjetivo na última ata, inclusive sobre o atingimento das três condições – que não são nem suficientes nem necessárias para a decisão sobre a Selic –, criou para si amplo espaço para agir sem poder ser criticado por contrariar a comunicação recente.

Toda a melhora do mercado nos últimos dias, evidentemente, está em boa parte sustentada pelo desanuviamento do mercado internacional. Num primeiro momento, discursos e ações dos principais bancos centrais, interpretados como relativamente ‘hawkish’, afastaram por um breve instante a jarra de ponche dos convivas da grande festa internacional de liquidez. Assim, foram pegos com o pé trocado os investidores mais afoitos e neófitos em papéis de muito longo prazo do mundo rico e ativos em geral dos emergentes. Agora, no entanto, tanto a correção técnica já parece em boa parte encaminhada quanto os principais BCs maneiraram a postura e o tom (o Fed, BC norte-americano manteve ontem a taxa básica de juros no intervalo de 0,25% a 0,5%).

A impressão é de que, fundamentalmente, a economia internacional continua sendo guiada pelos determinantes mais profundos do excesso de poupança global em relação aos investimentos e da fraca produtividade do mundo rico, que resultam na liquidez abundante. A janela continua aberta para o ajuste brasileiro, desde que o governo Temer não reduza muito o ritmo de conserto do telhado enquanto ainda faz sol. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 21/9/16, quarta-feira.