Otimismo na infraestrutura

Claudio Frischtak, consultor de infraestrutura, acha que o jogo mudou, para melhor, na área de concessões e privatizações. O bem-sucedido leilão de linhas de transmissão esta segunda-feira (21/4/17) é apenas um de vários marcos positivos que ele vê desde que a nova equipe econômica retomou a agenda de participação do capital privado nos investimentos em infraestrutura.

Fernando Dantas

26 de abril de 2017 | 12h57

O bem-sucedido leilão de linhas de transmissão realizado na segunda-feira (24/4/17) é um de vários marcos do início da retomada dos investimentos do setor privado na infraestrutura, na visão do especialista Claudio Frischtak, da Inter.B Consultoria.

“Eu sei que a melhoria da situação econômica demora a chegar na população, e o desemprego se mantém muito alto, mas, do ponto de vista do investimento em infraestrutura, não tenho a menor dúvida de que País já está muito melhor”, diz Frischtak.

O consultor atribui a melhora à qualidade da equipe econômica, não só no Ministério da Fazenda e no Banco Central, mas também no Ministério de Minas e Energia e, em sentido amplo, na cúpula de estatais como Petrobras e Eletrobras.

Antes de enumerar os diversos “marcos” dessa retomada, Frischtak pondera que a melhora do ambiente macroeconômico desde que a nova equipe econômica assumiu, no início do governo Temer, foi um pano de fundo fundamental.

Ele nota que a queda de 3 pontos porcentuais da Selic desde outubro refletiu-se em reduções em alguns casos ainda maiores na curva de juros privados, com forte barateamento do custo de capital. “Mas essa queda dos juros também influencia muito a percepção de risco do investidor”, acrescenta.

Frischtak menciona que havia uma percepção de que o Programa de Parcerias de Investimentos (PPI) do governo Temer estava avançando muito lentamente. Porém, ele vê isso como consequência da necessidade da equipe econômica, com recursos humanos limitados, lidar primeiro com a “herança maldita” do governo anterior: obras paradas, concessões malfeitas, etc.

Agora, porém, o consultor já identifica uma sucessão de leilões de sucesso (não só na esfera federal), que ele considera como “marcos” do início de uma fase mais racional de atração do capital privado para a infraestrutura.

O primeiro, em outubro do ano passado, foi também um leilão de transmissão de energia. “Foi um marco não porque os deságios tenham sido fantásticos, mas sim porque pela primeira vez a Eletrobras não entrou para praticar taxas ‘patrióticas’ de retorno, o BNDES não ofereceu financiamento com base na TJLP – muitos acharam que o leilão ia micar por causa disso, mas foi um sucesso”, ele explica.

Já no caso do leilão dos aeroportos de Fortaleza, Salvador, Florianópolis e Porto Alegre, em março, Frischtak considera que poderia ter havido um desenho mais amplo “do que queríamos como nação do setor aeroportuário”, com uma redefinição mais substantiva do papel da Infraero. Ainda assim, ele louva os resultados e acha que o curso de ação do governo foi coerente com suas prioridades.

O fundador da Inter.B achou extremamente positivo, em relação aos aeroportos, que empreiteiras não estivessem nos consórcios vencedores, como em concessões passadas, o que cria conflitos de interesse e leva a sobreinvestimentos, “como aconteceu em Viracopos”. Apareceram candidatos até para aeroportos que se consideram mais difíceis de privatizar, como Porto Alegre, e grupos estrangeiros do setor como a francesa Vinci, a alemã Fraport e a suíça Zurich saíram vencedores, atestando o sucesso do leilão, que rendeu cerca de 23% acima do valor esperado pelo governo (o ágio foi mais baixo do que o de concessões anteriores).

Frischtak destaca também o leilão de concessão de rodovias em São Paulo, especialmente a vitória do banco de investimentos Pátria no lote centro-oeste. “Eles participaram agressivamente, no bom sentido, e agora devem otimizar o empreendimento, contratando um conjunto de provedores de bens e serviços – também é um marco no uso mais eficiente de recursos”, diz o consultor.

E, finalmente, ele aponta o forte deságio de ontem do leilão de linhas de transmissão. Para Frischtak, “esse sucesso é o desmentido do non-sense do governo Dilma, de que era preciso o BNDES subsidiar maciçamente, a Eletrobrás praticar taxas ‘patrióticas’ de retorno”.

O consultor fecha sua lista com algumas operações bem menores na área portuária. “E há ainda a reorganização do setor de saneamento, onde estão acertando na mosca, com foco nas empresas estaduais”, conclui. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 25/4/17, terça-feira.