Pandemia, concentração, abertura

Artigo de economistas do FMI alerta para o risco de que destruição de empresas na pandemia, especialmente pequenas e médias, aumente o poder de mercado das empresas dominantes, prejudicando a retomada.

Fernando Dantas

24 de março de 2021 | 21h27

A pandemia devastou as economias do mundo todo de múltiplas formas. Recente artigo no Blog do FMI chama atenção para um estrago pouco discutido. Ao levar à destruição de uma enorme quantidade de negócios, especialmente pequenos e médios, os efeitos econômicos da Covid-19 vão ampliar o poder de mercado das empresas dominantes.

Segundo os autores do artigo, Kristalina Georgieva, Federico J. Díez, Romain Duval e Daniel Schwarz, esse é um fator que pode atrapalhar a retomada econômica pós-Covid.

Eles citam outros estudos do FMI que mostram que a concentração do poder de mercado nas mãos de poucas empresas sufoca a competição e freia os investimentos.

Os autores fizeram uma estimativa do aumento do poder de mercado das empresas dominantes em função da destruição de muitos negócios pela pandemia. Eles utilizam, como medida de concentração de mercado, a razão entre o faturamento das quatro maiores empresas e o faturamento das vinte maiores empresas, em cada país e cada setor.

Supondo que as vendas das empresas falidas irão para o grupo de 1% de maiores firmas por setor e por país, os autores estimam o aumento da concentração com a pandemia, comparado a um cenário contrafactual em que a Covid-19 não tivesse surgido.

A conclusão é que a concentração – usando o indicador mencionado acima – vai aumentar de cerca de 56% para quase 60% por causa da pandemia.

Esse efeito da pandemia é enorme. Os pesquisadores calculam que o aumento da concentração por causa da Covid-19 pode ser do mesmo tamanho do ocorrido de 2000 a 2015 – que foi grande, como explicam a seguir.

Segundo o artigo, a prevista piora da concentração com a Covid-19 vem em cima de uma tendência de décadas de aumento do poder de mercado das empresas dominantes.

Em termos dessa tendência de longo prazo de aumento da concentração, cita-se que as margens de lucro subiram mais de 30% desde 1980, e, nos últimos 20 anos, esse aumento de margens no setor digital foi o dobro daquele da economia como um todo.

Os economistas ressalvam que forte lucratividade é um prêmio justo para empresas que revolucionaram seus setores, como Ikea e Apple.

Mas acrescentam que as empresas inovadoras que levaram disrupção aos seus respectivos mercados há cerca de duas décadas hoje não sofrem a mesma pressão de potenciais novos competidores, por uma série de razões: economias de escala e escopo, efeitos de rede e fusões e aquisições que tendem a diminuir vendas e pesquisa e desenvolvimento (P&D) em firmas concorrentes.

Na conclusão, os economistas fazem uma série de recomendações, como ampliar os critérios para que órgãos que promovem a competição barrem fusões e aquisições e coíbam práticas anticompetitivas; proibir acordos entre empresas para não tirarem trabalhadores uma das outras; e ampliar a proficiência digital e os orçamentos dos órgãos pró-competição.

A questão levantada pelos pesquisadores do FMI faz pensar no caso brasileiro, uma economia extremamente oligopolizada em que certamente a devastação de empresas pela pandemia vai aumentar ainda mais a concentração e o poder de mercado, em detrimento da inovação e do estímulo ao aumento da produtividade.

A agenda elencada pelos autores do artigo é muito bem-vinda no Brasil, mas uma arma adicional foi abordada recentemente – por razões diferentes – pelo economista Edmar Bacha no jornal Valor Econômico.

Em artigo intitulado “Abertura Já”, Bacha defende a redução de tarifas de importação e de barreiras não tarifárias como forma de, simultaneamente, combater o surto inflacionário e estimular a produtividade na economia brasileira.

Bacha nota que o momento é propício para uma rodada de abertura comercial, já que “a balança comercial é positiva” e “jamais tivemos uma taxa de câmbio tão desvalorizada”.

De fato, a abertura, além de permitir maior incorporação de insumos importados e maior inserção nas cadeias globais de valor, torna vários mercados domésticos mais suscetíveis à competição, compensando a possível concentração de mercado gerada em alguns setores pela pandemia.

Adicionalmente, em termos de sequenciamento, faz sentido abrir a economia brasileira em um momento no qual a solvência externa é bem robusta, como aponta o indicador de reservas adequadas do FMI, e o câmbio, como notou Bacha, está muito acima do nível de equilíbrio macroeconômico.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 24/3/2021, quarta-feira.