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Para onde vai a inflação?

Analistas avaliam a trajetória da inflação em 2016 e 2017, à luz da piora das expectativas após a decisão do Copom em janeiro de manter a Selic inalterada em 14,25%.

Fernando Dantas

17 Fevereiro 2016 | 19h49

Passado pouco menos de um mês desde a decisão do Copom de manter a Selic em 14,25% na reunião de janeiro, as expectativas de inflação de 2016 saíram de 7,1% para 7,61%, e as de 2017, de 5,5% para 6%, segundo a mediana do sistema Focus de coleta de projeções do mercado pelo Banco Central (BC). Os dados são da coleta de 12/2, sexta-feira. Ainda assim, uma corrente de analistas acha que a decisão do BC foi acertada, apesar da comunicação atrapalhada.

“O que está acontecendo no mundo é novidade, não era para subir o juro mesmo”, diz Alexandra Ázara, sócio e economista-chefe da gestora Mauá Capital, em São Paulo. Segundo o economista, “talvez seja forte dizer que estamos num cenário de risco global parecido com o de 2007, mas algo de diferente está acontecendo, e ainda não está claro o que é”.

Ele nota que, desde o dia 27 de janeiro, três dos mais importantes bancos centrais do mundo – o Fed (Federal Reserve), dos Estados Unidos, o Banco Central Europeu (BCE) e o Banco do Japão – vieram com “novidades dovish”, isto é, na direção de afrouxar a política monetária.

O Fed não só manteve a taxa básica inalterada como comunicou que está monitorando atentamente a situação econômica e financeira internacional, e seu balanço de riscos. O BCE indicou que vai aumentar o afrouxamento quantitativo na sua próxima reunião e o Banco do Japão anunciou juros negativos.

“Não acredito que os principais BCs tenham tomado essas decisões na sequência sem fortes motivos”, diz Ázara. Ele considera que a alta das expectativas de inflação esta semana “nem foi tão forte assim” (na sexta-feira, 5/2, pré-Carnaval, a projeção para 2016 era de 7,56%, e a de 2017, já de 6%). O sócio da Mauá acha que a inflação em 2016 pode ficar abaixo de 7%, e, para 2017, tem um número de 6%, mas que ainda pode variar bastante dada a alta incerteza.

Alexandre Póvoa, presidente e sócio fundador da gestora Canepa, no Rio, diz que o BC “acertou por vias tortas” em janeiro. Para ele, as expectativas de inflação não estão subindo porque o juro é baixo, mas pela deterioração adicional da situação fiscal, com o adiamento do contingenciamento e muito pouco sinal de reformas de médio e longo prazo.

Com isso, ele continua, a inércia inflacionária está cada vez mais resistente, e a política monetária está “nitidamente limitada pela política fiscal”. Para Póvoa, a única forma de a política monetária combater a inércia seria dar uma “pancada” nos juros. “Subir 0,25 ou 0,5 (ponto porcentual) é enxugar gelo”, ele diz. Embora não ache que o País esteja em dominância fiscal – quando subir juros se torna contraproducente para a inflação –, o economista considera que um choque de juros “traria essa discussão à baila de novo”, e por isso não seria recomendável.

Já Marco Franklin, sócio da gestora Platina Investimentos, no Rio, pensa que, diante da profundidade da recessão, o Banco Central escolheu a estratégia de “parar de subir a Selic e esperar a inflação cair”. “Se isso acontecer, vou dar parabéns ao BC, mas temo que vai dar errado e o BC vai acabar tendo de subir de novo”, diz o analista.

Ele nota que a situação fiscal continua não resolvida e o País caminha para o terceiro ano consecutivo de déficit primário, com a inflação bastante alta desde 2011 – isto, a seu ver, reforça a indexação e a inércia inflacionária, criando um piso muito resistente para inflação. Franklin lembra que as divulgações recentes do IPCA têm seguidamente surpreendido para cima, o que ele atribui ao fato de que “o mercado pode estar subestimando o fator indexação”.

Franklin prevê que este ano haverá bandeira verde, com reajuste da energia próximo de zero, mas ainda assim acha que o IPCA ficará em torno de 8% em 2016. O grande problema, continua, é que ele não vê de 2016 para 2017 uma queda significativa da inflação, como a que deve ocorrer de 2015 para 2016.

O gestor cita três fatores que devem pressionar a inflação em 2017. O primeiro é que, com bandeira verde este ano, a energia não terá mais o que cair no ano que vem, “e o que vai valer é a boa e velha indexação pela inflação passada, de 8%”.

O segundo fator tem a ver com os fenômenos El Niño e La Niña (respectivamente aquecimento e resfriamento das águas do Pacífico na costa da América do Sul). Franklin diz que, depois de dois anos de El Niño, os meteorologistas já preveem La Niña, possivelmente até no segundo semestre deste ano, ou em 2017. A La Niña, invertendo os efeitos do El Niño, provoca clima mais seco e quente – e mais desfavorável à safra de grãos – nas regiões produtoras dos Estados Unidos, e também prejudica, pela secura, os grãos no Sul brasileiro, responsável por mais de 30% da safra nacional. Com isso, Franklin acha que os grãos podem subir e ser um fator inflacionário no próximo ano.

Finalmente, há o fator câmbio. Diante do descontrole fiscal, o gestor acha mais provável que o real continue se depreciando, o que deve reforçar a pressão inflacionária para 2017. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 15/2/16, segunda-feira.