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Para onde vai a política fiscal?

Ex-diretores do BC Tiago Berriel e Carlos Viana, analisando a política monetária, explicam a importância do ajuste fiscal pós-pandemia. Já Nelson Barbosa, ex-ministro da Fazenda de Dilma, recomenda investimento público e estímulo fiscal.

Fernando Dantas

08 de junho de 2020 | 12h16

Os anos e as décadas passam, mas o Brasil não consegue sair do debate fiscal. Agora, à medida que o mundo inicia a saída do pior momento da contração do coronavírus, a discussão sobre as contas públicas vai voltar com toda a força no Brasil.

Segundo os números de Tiago Berriel, sócio e economista-chefe da gestora Gávea, o aumento de gastos primários em função da Covid-19 este ano deve ser entre 7% e 9% do PIB. Com expectativa de queda do PIB de 7% a 7,5% corroendo a arrecadação, o déficit primário deve ser superior a 10% do PIB.

Em um ano a dívida bruta deve subir quase 20 pontos do PIB, saindo de pouco mais de 75%, ao final do ano passado, para cerca de 95%, no final deste. A dívida líquida, supondo um câmbio de R$ 5,5, salta de 55% para 70% do PIB.

Todos esses números foram ditos de cabeça e de forma aproximada durante uma “live” esta manhã em que, com mediação de Ilan Goldfajn, presidente do Conselho do Credit Suisse no Brasil, Berriel  debateu com Carlos Viana, sócio-fundador e membro do Comitê Executivo da Asset 1 (gestora criada recentemente).

Os três estiveram juntos no BC no governo Temer, Ilan como presidente e Berriel e Viana como diretores.

A posição dos dois ex-diretores do BC sobre a questão fiscal (e de Ilan também, embora nesse debate de hoje ele tenha atuado como moderador) é, em linha gerais, a mesma.

Para o grupo, o aconselhável é que a explosão de gastos com a pandemia (todos consideram que aumentar a despesa este ano era apropriado) seja um fenômeno estritamente temporário.

Mas eles deixam claro que há dúvidas quanto a isso, e a reação do governo a essa dúvida pós-pandemia será uma variável chave para determinar quão bem (ou quão mal) o Brasil sairá dessa crise.

Para Berriel, a sinalização de um ajuste fiscal crível pós-Covid poderia abrir um “caminho suave” para a economia brasileira. Já Viana diz que “a dúvida é se vamos voltar para o mesmo trilho [da política fiscal pré-crise], ainda que de um ponto de vista muito mais desfavorável”.

Eles acham que essa dúvida fiscal tem que estar presente no balanço de riscos do Copom. Berriel frisa que se preocupar preventivamente com o canal que vai da dúvida fiscal aos ativos (câmbio), e dos ativos à inflação, não é nada “heterodoxo” na gestão de um sistema de metas num país emergente como o Brasil.

O Brasil não é um país desenvolvido com moeda de reserva, acrescenta Viana. Berriel menciona o momento “anômalo” dos mercados, com risco ampliado, muito estímulo monetário e muita dúvida fiscal. É um contexto no qual poderia ser produzido em algum momento um impacto muito rápido e não linear no câmbio que, no limite, poderia afetar a inflação corrente e, pior, desancorar as expectativas inflacionárias.

A prescrição dos dois é que, dado que a tendência da inflação permanece baixista, o BC pode continuar a testar os limites do afrouxamento monetário, mas com cautela, tateando o espaço à frente em vez de avançar cegamente.

No outro lado do debate, o ex-ministro da Fazenda de Dilma Rousseff, Nelson Barbosa, teme que, na saída da pandemia, a equipe econômica volte a cometer o que considera os erros do governo Temer. Ele expõe esse argumento em artigo na Folha de São Paulo de 4/6.

Assim, o ex-ministro considera que a retomada econômica pós-pandemia pode ser mais rápida com elevação de investimentos públicos e outras medidas de estímulo fiscal – como já se planeja nas principais economias do mundo.

Enquanto a agenda fundamental pós-crise, para Berriel e Viana, é sinalizar a retomada do ajuste fiscal, Barbosa vê como prioridade o governo usar as suas alavancas para tirar a economia da letargia (o que, se acontecer, ajudaria as contas públicas via arrecadação).

Por enquanto, com Paulo Guedes no leme da economia, prevalece em tese a posição dos ex-diretores do BC. Mas o sistema político dá sinais de cansaço com o discurso da austeridade e Jair Bolsonaro é cristão-novo em termos de liberalismo e ortodoxia econômica. Ainda é muito arriscado prever qual prato da balança vai pesar mais.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 5/6/2020, sexta-feira.

 

 

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