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Para onde vai a popularidade de Bolsonaro?

Pesquisa da CNT/MDA confirma grande queda de popularidade do governo desde fevereiro. Mas há ainda 60% dos eleitores que gostam ou dão o benefício da dúvida para Bolsonaro.

Fernando Dantas

26 de agosto de 2019 | 19h17

A pesquisa divulgada hoje pela CNT/MDA tem duas faces: uma bastante negativa para o governo de Jair Bolsonaro, a outra levemente esperançosa (mas num nível crítico).

A história negativa é muito clara. O governo do atual presidente começou com um nível de popularidade bastante razoável e, passado pouco mais de meio ano, houve uma grande sangria de apoio popular.

É normal que os níveis de popularidade de um presidente iniciando seu primeiro mandato sejam bastante altos – a sociedade que acabou de escolhê-lo tende naturalmente a dar todo o benefício da dúvida possível. E também é normal que, mesmo no início de governo, quando o novo governante começa os seus embates reais com a difícil realidade, a popularidade recue daqueles elevados níveis de imediatamente após a posse.

No caso de Bolsonaro, porém, essa queda inicial foi bastante forte, e isso é uma má notícia (já sabida e agora reconfirmada).

Em fevereiro, apenas 19% dos brasileiros consideravam o governo de Bolsonaro ruim ou péssimo (com tão pouco tempo, o número indica aqueles que julgam erradas as ideias do presidente sobre como governar), proporção que subiu cerca de 20 pontos porcentuais, para 39,5%, agora em agosto. Já os que consideram o governo ótimo ou bom recuaram cerca de 10 pontos percentuais, de 38,9% em fevereiro para 29,4% em agosto.

O restante, tanto em fevereiro como agosto, mistura os que consideram o governo regular e os que não sabem opinar – estes últimos naturalmente mais altos no início do ano.

O copo meio cheio para Bolsonaro pode ser enxergado quando se soma as opiniões “regular, bom e ótimo”, considerando que são uma espécie de “base de não rejeição”: é o grupo de eleitores que ou está gostando do presidente ou ainda lhe dá o benefício da dúvida.

Em suma, quando esse agrupamento ainda corresponde à maioria da população, é difícil para a oposição, o Congresso e as ruas acuarem um presidente, naquele processo que começa com desmoralização e pautas bombas e pode evoluir até um impeachment. E, pelo contrário, quando esse segmento se torna minoria, a governabilidade cai e os riscos de deposição aumentam.

Pois bem, olhando-se por essa ótica, o recuo das respostas “regular, bom e ótimo” foi de 67,9% em fevereiro para 58,5% em agosto, de cerca de nove pontos porcentuais. A sangria parece menor por esse ângulo.

Aqui, porém, há um complicado: os que preferem não opinar, que tanto podem ser vistos como um grupo amorfo e alheio ao processo político quanto podem ser colocados entre os que ainda dão o benefício da dúvida.

Se forem incluídos junto aos regulares, bons e ótimos, a queda é maior: 81% em fevereiro e 60,5% em agosto.

Mas há uma interpretação mais ampla que parece se desenhar claramente nesses resultados, para além desse ou daquele detalhe.

Logo no início, no auge da boa vontade do eleitorado, o governo de Jair Bolsonaro era visto como positivo ou pelo menos como não comprometedor por cerca de 70% dos brasileiros, ou pouco mais. Da massa restante, entretanto, apenas 20% se colocavam resolutamente contra o novo presidente, o que dá a impressão de ser um voto mais caracteristicamente ideológico, de esquerda.

Como se sabe, Bolsonaro assumiu e, fora a agenda liberal na economia, governou para sua base mais fervorosa, com atitudes e discurso que o tempo todo sinalizavam na direção do radicalismo de direita e até extrema-direita, em oposição a uma guinada para o centro. Durante esse período a economia se estabilizou, mas reagiu muito pouco em termos de crescimento, emprego e renda.

O resultado, seis meses depois (de fevereiro a agosto) foi que aquela base dos brasileiros que gostam ou pelo menos aceitam o atual governo estreitou-se para ligeiramente menos de 60%, o que é um nível crítico e simbólico. Mas houve uma mudança também no restante do eleitorado. O número dos que não sabiam opinar caiu de 13,1% para 2%  – e, desta forma,  consolidou-se uma fatia muito grande do eleitorado, ainda que minoritária, com 40%, que decididamente não gosta do governo do atual presidente.

Com a base de “não rejeição” resistindo em torno dos 60%, e alguma perspectiva de melhora da economia à frente, pode-se dizer que as chances de um primeiro mandato bem-sucedido para Bolsonaro sobrevivem, mas estão num nível delicado, para dizer o mínimo.

A pesquisa de agosto da CNT-MDA foi realizada entre os dias 22 e 25 de agosto e, portanto, já deve ter captado bem os efeitos da crise ambiental.

Tudo indica que Bolsonaro dará continuidade à sua estratégia política de governar para a direita e extrema-direita, sem gestos para o centro (a ver depois do recuo no tema ambiental, com uma posição mais conciliadora no recente discurso, mas esta pode ter sido uma exceção causada pela pressão do agronegócio).

Não parecem prováveis gestos para os 40% que desgostam do governo, tampouco para os 29% de “regulares”, que ainda dão o benefício da dúvida. O que pode atrair este último grupo é a reação da economia que, desta forma, vai se tornando uma variável crucial para determinar o futuro do governo Bolsonaro.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 26/9/19, segunda-feira

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