“Para que servem reservas se não for para suavizar um choque?”

Fernando Dantas

23 de agosto de 2013 | 21h28

O economista-chefe do Itaú Unibanco, Ilan Goldfajn, é um piloto experimentado de turbulências, tendo trabalhado na cúpula do Banco Central (BC) no dificílimo período entre 2000 e 2003, quando o Brasil foi abalroado pelo apagão, pela crise argentina e pelo nervosismo eleitoral da eleição de Luiz Inácio Lula da Silva. Em outubro de 2002, o dólar raspou em R$ 4, a maior cotação histórica desde a estabilização da moeda com o plano Real.

Do alto da sua experiência no BC, Goldfajn diz que “esta crise atual é diferente das crises do passado”. Além dos US$ 370 bilhões em reservas para o BC atuar, o economista observa que a turbulência de hoje não é uma “crise de balanços”, como ocorria até 2003.

Agora, o setor público não está endividado em dólares (na verdade, é credor na moeda americana) e o setor privado “não está com a corda no pescoço”.

Para Goldfajn, o que se assiste atualmente “é uma crise que tem a ver com crescimento baixo e inflação alta, com problemas de competitividade – é uma crise mais macroeconômica do que dos balanços do setor público e privado”.

Segundo o economista, o País está diante de um ajuste do déficit em corrente, que deverá ir da casa de 3,5% do PIB para algo entre 1,5% e 2%.

Ele acha que um câmbio de R$ 2,30 seria suficiente para promover essa correção ao longo de três a quatro anos. O atual “overshooting”, porém, “pode obrigar o País a fazer um ajuste muito rápido”.

Goldfajn observa que as reservas correspondem a 15% do PIB, o que poderia teoricamente prover de 1,5% a 2% do PIB de dólares por muitos anos – mais do que o tempo necessário ao ajuste – para fechar a necessidade de financiamento externo do País.

“Para que servem as reservas se não for para suavizar o choque?”, pergunta o economista-chefe do Itaú-Unibanco.

Apesar disso, ele não vê muita importância na questão de o BC vender swaps cambiais ou atuar no mercado à vista. “Não faz muita diferença em termos da exposição cambial, o governo vende swap porque tem lastro nas reservas, mas as reservas ficam comprometidas como lastro dos swaps”, analisa.

Goldfajn diz que “com certeza vai haver ‘pass-through’ (repasse cambial) da atual desvalorização”. O Itaú-Unibanco revisou recentemente suas projeções de inflação para 2013, de 5,9% para 6,1%; e para 2014, de 5,8% para 6%. Ele nota que, como a projeção de inflação continua alta para o próximo ano, ela indica que vai haver algum efeito secundário da depreciação (o efeito primário é o impacto de curto prazo nos preços dos bens comercializáveis internacionalmente).

Se o BC quiser conter de forma mais definitiva os efeitos secundários, a Selic teria de subir mais do que o contemplado no cenário do Itaú-Unibanco (9,75% no final de 2013, mantendo-se aí até o fim de 2014). “Teria de haver disposição para aceitar um crescimento ainda menor num ano eleitoral”, diz Goldfajn, ressaltando que as previsões do Itaú-Unibanco para o PIB deste e do próximo ano são de, respectivamente, 2,1% e 1,7%. Um aperto monetário mais forte impactaria mais o próximo ano, em que a projeção já está próxima de 1,5%.

Longo prazo

A conjuntura atual não corrobora um cenário de longo prazo desenhado pelo Itaú-Unibanco há alguns anos, em que o crescimento se firmava em torno de 4% e a taxa de investimentos subia até cerca de 21% ou 22% do PIB.

Segundo Goldfajn , o problema é que o País “não conseguiu transformar a economia de consumo em economia de investimento”. O economista nota que, na saída da crise global de 2008 e 2009, o Brasil teve todas as oportunidades de financiar um ciclo de aumento do investimento, com o investimento direto estrangeiro caminhando para o nível atual de aproximadamente 2,5% do PIB. “Financiamento não faltou”, ele nota.

A taxa de investimento, porém, depois de testar os 20% do PIB, recuou para 18%.

Para Goldfajn, o governo tentou inicialmente puxar o investimento através do setor público, mas não foi bem sucedido. Em seguida, o setor privado foi convocado, mas houve uma corrosão da confiança na estabilidade das regras do jogo e do marco institucional.

“Em termos de consumo, foi a que a gente imaginou (no cenário de longo prazo), mas o investimento não correspondeu”, reflete o economista, acrescentando que “investimento é uma questão de estado de espírito”, e, por isso mesmo, mais difícil de prever.

Para Goldfajn, “a percepção do mundo de que o Brasil, como parte dos Brics, ia crescer bem mais que os países avançados não se materializou – agora, deve levar alguns para a confiança voltar, não vai ser no ano que vem”.

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast. E-mail: fernando.dantas@estadao.com

Esta coluna foi publicada originalmente na AE-News Broadcast

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