Partidos não devem fugir da autocrítica

Fernando Dantas

21 de junho de 2013 | 20h12

O caos que tomou conta de boa parte do Brasil nesta quinta-feira pode, paradoxalmente, ter o efeito de acalmar os ânimos no curto ou médio prazo. O Movimento Passe Livre (MPL), que iniciou a onda de manifestações, já avisou que se retira de campo temporariamente, porque não quer ser confundindo com as hordas de desordeiros ou gangues de jovens de pendor fascista que estiveram no centro das confusões de ontem.

A violência excessiva deve ter chocado a maior parte dos brasileiros, provocando decepção ante as expectativas de renascimento cívico ingenuamente despertadas pela deflagração do movimento. É possível que um período de ressaca siga-se à euforia e ao caos.

Do ponto de vista de qualquer discussão mais séria de política e gestão da coisa pública, a pauta do MPL é pueril. Por mais que se considere o peso das passagens de ônibus no orçamento familiar dos brasileiros menos favorecidos, não é impedindo reajustes pela inflação passada que se resolverá o problema. O velho chavão de que não existe almoço grátis é incontornável – estes custos serão repassados adiante, e, dado clima de demandas exacerbadas do grande público, isto provavelmente será escamoteado.

Dois dos mais recorrentes problemas históricos da gestão pública no Brasil são reforçados por esse tipo de “conquista popular”: a irresponsabilidade fiscal e a falta de transparência dos tributos e gastos públicos.

Por outro lado, analisar o que ocorreu nas ruas brasileiras na última semana por um prisma exclusivamente tecnocrático talvez seja perder os contornos maiores da história. Por mais ingênua, irrealista e demagógica que tenha sido a reivindicação básica, e por mais que o festival de demandas e bandeiras díspares que veio a seguir não aponte para nenhum programa político e econômico viável, a explosão de insatisfação popular trouxe para o palco político uma imensa legião de jovens com fome de participação.

Apesar de ainda pouco articulados, e com dificuldades de entender a forma penosa como os avanços sociais são conquistados numa sociedade democrática, os jovens que foram as ruas sacudiram o sistema político da sua letargia e corporativismo. De um momento para o outro, a autocomplacência dos dirigentes do Brasil foi posta em xeque pela ira difusa da sociedade contra um setor público caro e incompetente. Até os gastos com a Copa do Mundo, no País do futebol, foram alvo dos ataques da cidadania jovem nas ruas.

A boa lição que os políticos poderiam tirar de tudo isso é que o sistema partidário brasileiro passa por uma crise de representação, já que possivelmente dezenas de milhões de jovens não consideram que os partidos sejam o veículo adequado para canalizar suas críticas e demandas. Esta não é uma tese evidente e bem estabelecida, é bom ressalvar. O PT, por exemplo, tem uma formidável base social, formada pela rede de militantes, por sindicatos, movimentos sociais, etc.

Por outro lado, é nítido que uma parcela não desprezível de ex-militantes está insatisfeita com os rumos do PT, especialmente a partir do governo Dilma (não por coincidência, a partir do momento em que o carisma de Lula e o momento mágico da economia no segundo mandato do ex-presidente saíram de cena).

A insatisfação de parte da esquerda com o PT acontece por um problema básico do sistema político brasileiro, que já estava presente desde o governo tucano. Disputando um eterno Fla-Flu, os dois principais partidos brasileiros não têm tamanho suficiente para governar sozinhos, e são obrigados a buscar aliados em toda a parte, formando bases de sustentação extremamente heterogêneas. Assim, para o atual governo, fica quase impossível conciliar as posições de evangélicos e militantes da causa feminista e gay, ou de agricultores e defensores do meio-ambiente.

Esta situação fez com que a política brasileira se transformasse numa geleia geral, em que não há os sinais claros com que jovens de diferentes inclinações – esquerda, centro, direita – possam se identificar, como primeiro passo para a politização e o início da participação na vida cívica.

O fato de que Guilherme Afif Domingos, um político de linhagem liberal que é vice-governador de oposição em São Paulo, torne-se ministro de um governo federal de esquerda é um exemplo surreal da perda de sentido ideológico da política brasileira.

Risco de perder o foco

Outro problema da disputa entre PT e PSDB é que, reféns de forças políticas anacrônicas e de toda sorte de lobbies quando estão no governo, os dois principais protagonistas da política brasileira não conseguem se entender sobre uma pauta mínima, que crie as bases para uma disputa mais saudável pelo poder.

Assim, reformas inadiáveis que ataquem os aspectos mais absurdos do arcabouço tributário, burocrático, de gastos públicos e do sistema político arrastam-se por décadas, sem conclusão à vista. São mudanças que exigiriam o suporte de todas as forças mais racionais e modernas da política brasileira, contra lobbies retrógrados e políticos corporativistas.

Num sistema político funcional, situação e oposição brigam o tempo todo, mas isso não significa que não possa haver o eventual acordo (este, aliás, é um tema presente hoje também nos Estados Unidos, onde a radicalização política recente prejudica a governabilidade).

Em resumo, o sistema político partidário hoje não só é confuso, como sua falta de funcionalidade prejudica a gestão e a melhora do Estado brasileiro, fim último de qualquer governo. Não é de espantar, portanto, que jovens recém-despertados para a política assumam inicialmente uma postura “contra tudo isso que está aí”, que muita vezes guarda um viés anti-partidos.

A confusão de ontem na Avenida Paulista ocorreu quando bandos de jovens agressivos, com slogans e atitudes de extrema-direita, atacaram os que portavam bandeiras de partidos de esquerda, entre elas a do PT. É evidente que a ideia de um governo sem partidos é péssima, não sendo apenas fascista, mas totalitária – os muitos regimes comunistas de partido único do século XX, dos quais alguns sobrevivem, são uma clara demonstração de que esta aberração não reside apenas na direita.

De qualquer forma, seria uma pena se a atitude de uma turba minoritária e violenta tirasse o foco da classe política da necessidade de mudança. Não são apenas jovens “carecas” em busca de briga que são críticos da atuação dos partidos nacionais nas últimas décadas. Há dezenas de milhões de brasileiros, de espírito totalmente democrático, que sabem que é impossível haver uma democracia sem partidos, mas que sabem também que isso não é desculpa para que os políticos profissionais degradem o seu ofício.

A perspectiva de uma forte mudança no cenário econômico externo, com o fim (ainda que temporário) do boom de commodities e a normalização da liquidez internacional, torna bem possível que o Brasil passe por um ajuste doloroso, mas não necessariamente dramático, da sua economia. Neste contexto, os ganhos fáceis de renda e consumo podem não se repetir, e a população se tornará muito mais exigente quanto à melhora das condições gerais de vida.

Para isso, um sistema político saudável e um Estado mais eficiente são essenciais. A grande decepção que os jovens brasileiros que foram às ruas nas últimas semanas podem colher, caso os nossos partidos não façam a sua autocrítica e o seu dever de casa, não é, definitivamente, o caos, mas sim a continuação da mediocridade.

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