Partir ou não para o ataque, o dilema de Aécio

A decisão do tom das críticas à Marina é vital para Aécio, e extremamente difícil. Forte campanha negativa contra a candidata socialista poderia ser última cartada para chegar ao segundo turno. Porém, poria em risco o decisivo apoio de Marina na segunda etapa das eleições.

Fernando Dantas

26 de agosto de 2014 | 09h58

Uma das decisões mais cruciais da campanha de Aécio Neves, segundo o cientista político Carlos Pereira, é a de fazer ou não uma forte campanha negativa contra a candidata socialista, Marina Silva. Pereira, professor da Escola Brasileira de Administração Pública e de Empresas (Ebape), não recomendaria esse passo a Aécio, mas reconhece que a decisão não é nada trivial, e terá de ser tomada a curto prazo.

Ele lembra que, em 2002, o então candidato José Serra foi muito bem sucedido ao fazer campanha negativa contra Ciro Gomes, que aparecia mais cotado para ir ao segundo turno do que o tucano. É verdade que o próprio Ciro contribuiu para a sua derrocada, com declarações desastradas e grosseiras. Ainda assim, ficou claro que uma campanha fortemente negativa funciona, embora seja de bom tom criticar este tipo de estratégia política.

Segundo Pereira, o problema de uma campanha fortemente negativa de Aécio contra Dilma no primeiro turno é que ela pode inviabilizar um crucial apoio da concorrente no segundo, caso o tucano consiga vencer a primeira etapa.

Assim, o cientista político acha que a estratégia ideal para Aécio seria a de tentar se diferenciar de Marina ressaltando qualidades que ele tem, e que faltam a ela, em vez de partir para o ataque.

Pereira considera que Aécio tem o que mostrar: sucesso administrativo em Minas Gerais, uma estruturação política da candidatura muito superior, posições menos ambíguas sobre os grandes temas econômicos. Todos esses aspectos podem ser realçados em contraste com fragilidades de Marina nas mesmas áreas.

O problema, porém, continua o cientista político, é que é bem possível que as próximas sondagens eleitorais revelem que Marina superou Aécio no primeiro turno por uma grande margem  (na recente pesquisa da Datafolha, os dois candidatos estavam empatados). Se isso ocorrer, ele diz, será difícil para os estrategistas tucanos terem sangue frio e não partirem para uma campanha de ataques mais duros contra Marina.

Ele lembra que Aécio tem outra vantagem em relação à candidata socialista – o PSDB é um partido com bem mais capilaridade do que o PSB. Segundo Pereira, há trabalhos acadêmicos que indicam que aquilo que ele chama de “rede de interesses locais” influencia o resultado de eleições majoritárias.

Assim, o fato de que governadores, prefeitos, gestores públicos, empresas com contrato com governos, etc tenham seus interesses políticos e econômicos alinhados com uma determinada candidatura faz com que de fato trabalhem para que ela seja vencedora. Neste quesito, o PSDB é bem mais forte que o PSB. À medida que a campanha se desenvolva, e se esvaneça a comoção emocional com a morte de Eduardo Campos que acabou dando uma projeção excepcional à Marina, fatores como a melhor estruturação da candidatura tucana podem se tornar mais relevantes.

Outra vantagem de Aécio é que ele subitamente tornou-se o candidato menos conhecido nacionalmente (Marina e Dilma já passaram por campanhas presidenciais), o que teoricamente cria mais espaço para crescer.

Está claro para Pereira, no entanto, que nenhum dos trunfos expostos acima é garantia de que Aécio vá passar ao segundo turno. Marina é uma política altamente carismática que entrou na campanha como um furacão e pode passar por cima de fragilidades que desmontariam candidaturas menos potentes.

Assim, a decisão sobre o tom das críticas de Aécio à Marina é dificílima é vital. Críticas mais violentas podem ser uma última cartada para que o mineiro retenha alguma chance de passar ao segundo turno, o que parece cada vez mais difícil. Porém, caso ele chegasse lá, a campanha negativa contra Marina no primeiro turno poderia invibilizar o seu apoio a Aécio, que poderia ser decisivo.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 22/8/14, sexta-feira.

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