“Passado melhor, presente difícil”

Silvia Matos, economista do Ibre, analisa o PIB de 2014 e vê crescimento e investimento um pouco melhores ao longo do governo Dilma, por causa da revisão metodológica, mas isso não muda quadro negativo atual.

Fernando Dantas

30 de março de 2015 | 17h22

Para Silvia Matos, que chefia a análise de conjuntura macroeconômica do Instituto Brasileiro de Economia (Ibre/FGV), no Rio, os resultados do PIB de 2014 e da grande revisão metodológica (que alterou os números dos anos anteriores) mostram que o desempenho do crescimento e do investimento ao longo do governo da presidente Dilma Rousseff não foi tão ruim quanto indicava a série antiga. Por outro lado, os novos dados mudam muito pouco a história a partir de 2014: uma queda forte, que agora atinge quase todos os componentes do PIB pela oferta e pela demanda, e que devem resultar em recessão expressiva em 2015.

 

Com a sra. viu os resultados do PIB?

Eles confirmaram a desaceleração no governo Dilma, mas ela foi menos acentuada, quando comparada com os dados pela metodologia antiga. A média de crescimento do governo Dilma foi para 2,1%, comparada a 1,6% na série anterior. Assim, em média o governo Dilma cresceu 0,5 ponto porcentual a mais. Parece uma boa notícia, mas não é tão boa assim porque isso foi concentrado nos dois primeiros anos. A revisão mostrou que o começo do governo Dilma não foi tão ruim, mas terminamos da forma que já era sabida pela série antiga. Então a série nova só mostrou que a desaceleração foi um pouco atenuada ao longo de quatro anos, mas ela existe, e foi forte no ano passado.

O que a sra. destacaria?

O investimento teve uma queda menos acentuada do que anteriormente previsto. A gente esperava uma queda em torno de 7% e veio algo de aproximadamente 4%. O que é explicado em grande medida pela revisão dos dados da construção civil. A construção civil ficou muito mais relevante agora para o PIB e para os investimentos, seu peso aumentou. Toda a série foi revista, e em média esperamos que a construção civil tenha crescido quase 1% ao ano a mais desde 1995 (comparando a série anterior com a revista). O impacto mais relevante desse crescimento foi mais recente, porque a construção civil cresceu mais nos últimos anos. Assim, o investimento desacelerou bastante no ano passado, mas esse efeito da construção civil atenuou movimento. Então a média do governo Dilma foi de um investimento ainda alto, mas com uma desaceleração mais forte no ano passado, porque o setor da construção civil ainda está caindo bastante.

A sra. diria que o investimento é alto?

Com esses novos dados, o investimento ficou perto de 19,5% do PIB, um valor maior, sem dúvida. Mas acho que não muda muito a dinâmica recente. A gente observa uma redução muito grande da construção civil no ano passado e também este ano – todas as sondagens mostram que deve desabar em 2015. Além disso, a indústria se contraiu muito em 2014 e as compras de máquinas e equipamentos estão despencando este ano, o que deve continuar. Então, não mudou esse filme do final do primeiro mandato de Dilma da queda do investimento.

De qualquer forma, o nível da nova taxa de investimento coloca o Brasil numa posição melhor em termos de crescimento potencial?

Todos os países estão fazendo está revisão e há um aumento generalizado das taxas de investimento pela inclusão de pesquisa e desenvolvimento e outras mudanças metodológicas. Olhando pelo ponto de vista do retorno de capital, é como se houvesse um problema de eficiência, estamos usando mal esse nosso estoque de capital. Porque o investimento até que não foi tão ruim assim, mas o resultado final de um crescimento muito baixo, uma desaceleração muito forte, mesmo investindo, mostra queda da produtividade do capital.

Como a sra. viu o desempenho da indústria da transformação?

Ela caiu no ano passado 3,8%, muito em linha com o que esperávamos. Mas, nos anos anteriores, a revisão mostrou que ela foi um pouco melhor em relação ao que mostrava a série antiga. Então sem dúvida a indústria está caindo fortemente, mas de um patamar um pouco melhor do que se julgava. Muda um pouco a trajetória, mas a nova PIM-PF (pesquisa da produção industrial) já estava sendo usada em 2013 e 2014 – não há grande alteração do PIB por conta disso. Em 2011 e 2012 a mudança foi relevante.

Os serviços se desaceleraram…

A grande questão sobre a desaceleração da economia como um todo é que a indústria já vai mal há muito tempo, mas o setor de serviços segurava um pouco, o que atenuou a redução do crescimento. Só que agora a desaceleração está mais generalizada. Não é só na indústria de transformação: é na construção e em todos os setores de serviços, os mais intensivos em mão de obra, como comércio e outros serviços. Eles estão desacelerando muito desde o ano passado. Isso tem impacto sobre o emprego. Antes, como setores intensivos em mão de obra, ainda estavam bem, o emprego foi preservado mesmo com a fraqueza da indústria de transformação. Então a novidade do ano passado é essa desaceleração dos setores intensivos em mão de obra que agora está tendo impacto sobre o mercado de trabalho.

Qual a sua visão para o PIB de 2015? O resultado de 2014 e as revisões mudam o quadro?

O PIB divulgado hoje não altera o nosso cenário para 2015. Mas a medida de produto potencial será afetada de alguma forma. Porque a taxa de investimento é mais elevada do que aquilo que se tinha antes, e o nível do crescimento também foi um pouco mais alto. Mas no curto e médio prazo os desafios são enormes e a desaceleração e a recessão estão aí e não vão mudar.

Para quanto pode ter ido o PIB potencial, com a nova metodologia?

Nossas estimativas recentes são de 1% a 1,5%. Pode ser que agora fique mais entre 1,5% e 2%. Mas sabemos que o potencial depende de produtividade, ou seja, da eficiência do capital e do trabalho. E é nesse ponto que fica difícil chegar aos 2%. A economia precisa voltar a funcionar de uma maneira mais eficiente.

 

E qual é a sua projeção de crescimento para 2015?

Continuamos a prever uma queda de 1%. É claro que precisamos de mais tempo para depurar todos os dados, e esse número pode mudar um pouco, temos que alterar modelos. O desempenho da indústria de transformação deve se manter muito fraco, com contração forte este ano. Esperamos uma desaceleração mais intensa (em relação a 2014) da construção e do setor de serviços. Então a transformação continua ruim, e esses outros setores, que começaram a se desacelerar no ano passado, desaceleram-se ainda mais este ano. É por isso que teremos recessão em 2015, e não estagnação.

E quanto aos investimentos?

Eles caíram no ano passado, e prosseguem em queda este ano, porque a indústria continua muito mal e a desaceleração da construção civil é acentuada. Como a construção ganhou mais peso no investimento, isto vai de alguma forma afetar mais a taxa de investimento este ano.

O consumo das famílias é outro componente da demanda que começou a desacelerar.

Já tínhamos visto desaceleração no ano passado, o que é uma novidade, e que deve continuar em 2015, inclusive porque o emprego começa a ser afetado. Em 2014 o consumo das famílias ainda teve crescimento positivo, mas este ano esperamos uma contração em torno de 0,6%. Isso pode ser revisto um pouco, vamos refazer todas as contas, mas a ideia é que o desenho geral de 2015 não muda – pode haver alguns ajustes, mas a história continua a mesma. Inclusive porque a nova metodologia não mudou muito o que aconteceu em 2014.

Qual a sua análise do setor externo setor externo?

Foi meio zero a zero porque as exportações de bens e serviços caíram muito em quantidade, mas as importações também tiveram queda. Este ano esperamos uma contribuição positiva do setor externo porque a importação é mais sensível à atividade, e com a recessão deve cair mais.

Há algum destaque positivo no PIB?

A indústria extrativa foi superbem, com crescimento de 8,7%. Os dados mais recentes indicam um crescimento menor. A produção de petróleo foi muito melhor em 2014 do que nos anos anteriores, inclusive houve queda em 2012 e 2013.

O escândalo da Petrobrás pode afetar o setor de petróleo e gás?

Acredito que sim. Talvez no curto prazo ainda haja essas plataformas entrando em operação, mas precisamos de manutenção, de perspectiva de novas plataformas para manter esse cronograma de investimentos, que é muito intensivo em capital. Então é um problema não só para a produção, mas para o próprio investimento.

Que mais a sra. destacaria no PIB de 2014?

A agropecuária veio mais fraca, possivelmente pela questão da seca. Em 2015, a expectativa é um pouco melhor, mas nada que mude o nosso cenário. Outro aspecto interessante é que houve uma revisão muito grande dos dados de eletricidade. A forma pelo qual era computada não estava levando em conta que a composição da energia inclui agora muito mais energia térmica. O custo da ampliação da oferta de energia via térmicas é bem maior, e isso faz com que o resultado da produção de energia no Brasil tenha sido muito ruim nos últimos três anos.  Isso mostra um aspecto da nossa limitação de potencial de crescimento, porque é setor relevante para a economia do País. O setor está aumentando o valor adicionado, mas gastando muito mais insumos intermediários, gastando muito mais recursos domésticos. E no ano passado houve inclusive um recuo de 2,6% na eletricidade. Para o PIB total é irrelevante, mas, para mim, isso mostra um típico problema de eficiência da economia brasileira. (Fernando Dantas – fernando.dantas@estadao.com)

Esta entrevista foi publicada pela AE-News/Broadcast em 27/3/2015, sexta-feira.

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