Pastore é ganho para o debate eleitoral

Independentemente de trazer ou não alguma vantagem para a possível candidatura presidencial de Sergio Moro, a presença de Affonso Celso Pastore (anunciado como conselheiro econômico, caso o ex-juiz concorra) pode melhorar a qualidade da discussão econômica na campanha.

Fernando Dantas

18 de novembro de 2021 | 20h28

O anúncio por Sergio Moro de que Affonso Celso Pastore será seu conselheiro numa possível candidatura a presidente é, sem dúvida nenhuma, uma boa notícia.

Não se trata aqui de dizer que é boa por possivelmente reforçar a candidatura de Moro. Além de esse ponto ser duvidoso, ele escapa completamente ao escopo desta análise.

O lado positivo do anúncio é o de – caso Moro se candidate de fato – trazer de forma mais forte o pensamento econômico de Pastore para a esfera do debate político.

Concorde-se ou não com seus pontos de vista, Pastore é uma enciclopédia da discussão econômica no Brasil, com décadas e décadas de envolvimento profundo, consistente e apaixonado com os desafios e dilemas das politicas públicas no País – em economia, principalmente, mas não só; o seu interesse por política social, por exemplo, não é de hoje.

Seja na esfera privada como professor e consultor, na qual permaneceu a maior parte da sua carreira, seja no setor público, no qual seu cargo mais importante foi de presidente do BC na tumultuada década de 80, Pastore desenvolveu um repertório de interpretações e recomendações de política econômica que no Brasil são agrupadas no grupo “liberal e ortodoxo”.

O economista tem zero problema em ser classificado nessa categoria, mas no fundo se trata de uma simplificação.

Pastore nunca foi um ideólogo ultraliberal do Estado mínimo, mas sim um pesquisador pragmático com enorme apreço pelo conhecimento baseado em dados e evidências.

A participação de Pastore no debate econômico sempre foi norteada pela tentativa de, no contexto de um país subdesenvolvido, desigual, caótico e com uma economia política fortemente favorável ao populismo e às “soluções” simples, imediatistas e erradas, tentar influenciar os policymakers no poder – seja de que partido ou tendência forem – na direção de alguma racionalidade.

O economista, ao contrário das fantasias que muitas vezes tomam conta do mercado e de parte da elite econômica, tem perfeita consciência de que não existe “bala de prata” liberal para recolocar o Brasil no caminho do crescimento sustentável – e convergente para o padrão de renda dos ricos – de uma hora para outra.

Trata-se de um caminho longo, difícil e penoso, em que legiões de fragilidades macroeconômicas (a fiscal é a raiz de todas elas), distorções microeconômicas e grupos de interesse têm que ser enfrentadas por um núcleo técnico-político cuja única arma é a capacidade de mostrar à sociedade onde está o seu interesse difuso.

E é aqui que uma qualidade pessoal de Pastore talvez possa fazer alguma diferença no debate eleitoral: a veemência.

Diferentemente do perfil mais “cool” de muitos economistas que compartilham da maior parte de suas posições, Pastore é mais desabrido, sem papas na língua e comprometido ao defender a racionalidade e combater o populismo.

Sem nada das bravatas liberais delirantes de um Paulo Guedes, Pastore consegue passar também a sensação de que sua luta pelo aprimoramento das políticas públicas é um questão quente e fundamental e uma razão de viver para ele. Não se encontra em Pastore o tom por vezes frívolo de economistas de mercado plenos de ideias para salvar a Pátria, mas que a qualquer momento podem optar por desistir dessa luta inglória para viver suas vidas milionárias num canto luxuoso e anônimo qualquer.

A ver, entretanto, se a veemência e sinceridade de um conselheiro econômico como Pastore sobreviverão num ambiente de campanha eleitoral.

É sabido que, no histórico recente de campanhas eleitorais brasileiras, muitos conselheiros econômicos estelares foram quase que silenciados pelos candidatos aos quais serviam. A razão é o temor de eventuais “sincericídios” em temas espinhosos como reforma da Previdência, aumentos de salário mínimo, vantagens de servidores públicos etc., que pudessem virar armas populistas nas mãos dos adversários.

Pelo seu temperamento, é difícil imaginar um Pastore domesticado pelas conveniências políticas, jogando na defesa e falando apenas platitudes que não desagradem a ninguém. Por outro lado, como mencionado no início, esta coluna não tem a mínima ideia sobre se um “Pastore sincero” seria bom ou não eleitoralmente para Moro.

Mas certamente a voz sincera de Pastore durante o debate econômico da eleição do próximo ano seria positiva para o Brasil.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 18/11/2021, quinta-feira.