Paulo Guedes foi humilhado

A troca de comando na Petrobras está para o suposto liberalismo do governo Bolsonaro  como a saída de Sergio Moro esteve para o suposto combate à corrupção “lavajatista”. É o fim definitivo da ilusão.

Fernando Dantas

22 de fevereiro de 2021 | 19h27

A intervenção de Bolsonaro na Petrobras está tendo um claro impacto nos mercados no Brasil, para bem além do que ocorre no mercado internacional, em que as principais bolsas têm quedas moderadas.

O estrago no Brasil não se limita às ações da Petrobras, que caem em torno de 20%, a outras estatais, também com fortes baixas e ao Ibovespa, que recua 4,92% (quando esta coluna estava sendo redigida). O real está pressionado, levando o BC ao leilão de US$ 1 bilhão em swap cambial no mercado futuro. E a curva de juros empinou com força.

Os mercados, entretanto, seguirão nas próximas semanas reagindo a uma pletora de fatores internos e externos, inclusive às sinalizações concretas de como será a nova administração da Petrobras.

Importante agora é entender o que significa a intervenção de Bolsonaro na principal empresa do País em termos do restante do seu mandato.

A troca de comando na Petrobras está para o suposto liberalismo do governo Bolsonaro  como a saída de Sergio Moro esteve para o suposto combate à corrupção “lavajatista”. É o fim definitivo da ilusão.

A diferença é que Moro saiu brigado do governo, enquanto Paulo Guedes, silencioso desde a demissão de Roberto Castello Branco, vai por enquanto permanecendo como um zumbi do que pretendeu ser no projeto bolsonarista.

Durante a campanha eleitoral de 2018, Persio Arida, assessor econômico de Geraldo Alckmin, denunciou, em entrevista ao Estadão (por Renata Agostini, hoje na CNN), a postura liberal de Bolsonaro como uma farsa.

“Hugo Chávez também mostrou-se amigável com o mercado em sua primeira eleição, durou pouco”, comentou Arida à época.

O economista também classificou Guedes como “um mitômano que criou a falsa narrativa pela qual PSDB e PT são iguais e que tudo no Brasil foi errado porque ele e os liberais nunca estiveram  no poder”.

Arida notou que o que falta no Brasil não são bons economistas liberais, mas sim políticos com essa convicção.

Diante dos acontecimentos recentes, é difícil não dar razão a Arida. O próprio Guedes admite que subestimou as dificuldades quando diz (geralmente sem cumprir) que vai parar de dar prazos para suas promessas, porque os tempos da política são imprevisíveis.

Para ser justo com o atual ministro, ele encampa o liberalismo econômico com uma retórica entusiasmada que talvez tenha faltado a hábeis e preparados tecnocratas que o antecederam no leme da economia brasileira.

Tanto ele quanto Bolsonaro deixaram claro no início do governo que o ministro iria tentar “vender” seu programa liberal ao presidente, que se colocava como aberto a uma conversão gradativa – mas nunca afirmou que era um liberal convicto em economia.

Nesse jogo, Guedes não perdeu todas as paradas. A reforma da Previdência, a Lei da Liberdade Econômica (sem entrar no mérito da sua qualidade) e a autonomia recém-aprovada do Banco Central são alguns exemplos de vitórias.

O fato de que Bolsonaro não tenha se voltado contra o teto de gastos e até agora não tenha chutado definitivamente o pau da barraca fiscal também pode ser contabilizado no lado positivo do balanço de realizações do ministro no governo.

Mas são apenas exceções ao que é claramente a monumental derrocada do projeto liberal de Guedes. Pautas fundamentais, como privatização e abertura comercial, não deslancharam, e as chances de que ainda andem na balbúrdia atual são desprezíveis.

Os projetos queridos de Guedes, como a capitalização na Previdência e a CPMF para desonerar salários, nunca tiveram chance real de acontecer.

É verdade que, recentemente, o novo presidente da Câmara, Arthur Lira (PP-AL), defendeu a desindexação e a desvinculação total do Orçamento, bandeiras caríssimas a Guedes também.

A ver, entretanto, se não é mais uma afirmação de projetos inviáveis, desta vez por parte do parlamentar, e não do ministro, para variar um pouco. A reação negativa imediata de diversos grupos organizados à perspectiva de que gastos de saúde e educação possam aumentar ou diminuir ao bel prazer de deputados e senadores a cada ano, contida na fala de Lira, mostra que essa é outra “promessa” dificílima de cumprir politicamente.

A interferência na Petrobras, na verdade, é humilhante e vergonhosa para Guedes. Da forma truculenta e populista como foi feita, em função da chantagem de caminhoneiros de paralisarem o País com uma nova greve, e acompanhada da fala presidencial de que vai “meter o dedo na energia elétrica”, representa o que há de pior no populismo – e é precisamente aquilo que o liberalismo econômico busca combater.

Permanecendo no governo, Guedes será o gerente da massa falida da sua fantasia de um bolsonarismo liberal.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 22/2/2021, segunda-feira.