Perda global de confiança na política econômica

Fernando Dantas

21 de novembro de 2013 | 16h57

A redução da confiança nas políticas econômicas é uma das dez principais tendências globais para 2014 identificadas por uma pesquisa anual organizada pelo Fórum Econômico Mundial, conhecido pela reunião de janeiro em Davos, na Suíça. A pesquisa é realizada com mais de 1.500 pessoas do meio empresarial, dos governos, da academia e da sociedade civil, espalhadas por todo o mundo. Este ano, pela primeira vez, o Fórum fez um esforço especial para incluir jovens lideranças.

Segundo o economista John Lipsky, que escreveu um texto sobre o tema para a publicação da pesquisa, a perda de confiança nas políticas econômicas fica clara nos fracos indicadores de investimento e de emprego em praticamente todas as economias desenvolvidas desde a grande crise global.

Apesar da ênfase nos países ricos por Lipsky, que foi vice-diretor-gerente do Fundo Monetário Internacional (FMI), pode-se dizer que o fenômeno também está presente no Brasil, onde os questionamentos à chamada “nova matriz econômica” do início do governo da presidente Dilma Rousseff devem figurar entre os temas quentes do debate eleitoral em 2014. Além disso, as manifestações de junho podem ser vistas como uma grito de descrença em relação às políticas públicas em geral.

Para Lipsky, a desconfiança deriva de três fatores: o alcance e a intensidade da crise global, o lento ritmo da recuperação e as “expectativas irrealistas” que foram criadas em relação ao poder da política econômica de se contrapor aos problemas atuais.

O economista nota que, assim com a crise financeira foi vista como tendo sido causada por falhas na regulação, a dificuldade de as economias maduras se recuperarem é interpretada como um fracasso das políticas econômicas pós-crise. Lipsky, porém, critica o que considera uma tendência de se atribuir “poderes selvagemente irrealistas à capacidade de cura das políticas públicas”.

Uma outra possibilidade – não mencionada por Lipsky – para explicar a perda de confiança nas políticas econômicas é que, depois da crise global, o nível de discordância entre a nata mundial dos economistas cresceu fortemente, e o debate tornou-se feroz e dividido entre posições diametralmente opostas. Na questão fiscal, por exemplo, enquanto estrelas como o prêmio Nobel Paul Krugman defenderam o máximo de expansionismo, outra corrente – com influência dominante no Partido Republicano dos EUA e em boa parte dos governos europeus – receitava drástico ajustes fiscais. Numa situação dessas, é natural que o público fique confuso e perca a confiança nos especialistas.

Lipsky observa ainda que a pesquisa do Fórum mostra que a descrença nas políticas econômicas é mais forte entre as pessoas de menos de 50 anos, e especialmente na faixa entre 18 e 29 anos. Segundo o economista, essa diferenciação por idade pode estar ligada ao fato de que os mais velhos se sentem mais seguros por direitos adquiridos em termos de aposentadoria, planos de saúde e benefícios em geral, enquanto os mais jovens preocupam-se com a sobrevivência do arcabouço de seguridade social quando eles forem precisar.

Algumas das outras grandes tendências para 2014 identificadas pela pesquisa do Fórum são as tensões no Oriente Médio, o aumento da desigualdade de renda, os riscos cibernéticos, a inação diante das mudanças climáticas, e a falta de valores das lideranças.

América Latina e Brasil

Entre os respondentes da América Latina, as três tendências mais citadas foram o aumento das desigualdades de renda, o desemprego e a falta de valores das lideranças. Curiosamente, boa parte da América Latina vem de um período de queda da desigualdade e aumento do emprego. Assim, a pesquisa do Fórum Mundial pode estar indicando uma mudança de humor na região, pelo menos entre as lideranças do setor privado e público, que são o principal grupo respondente.

Embora a perda de confiança nas políticas econômicas não apareça entre as três principais tendências na América Latina, ela é classificada entre os respondentes da região como próxima do nível de “muito significativa”, numa escala montada pela pesquisa que vai de “nada significativa” a “extremamente significativa”.

No Brasil, especificamente, 41% dos entrevistados disseram que a situação econômica é ruim. É um nível relativamente médio entre os principais países do mundo. Nos Estados Unidos, por exemplo, 65% disseram que a situação econômica é ruim, enquanto na China foram apenas 10%.

A pesquisa do Fórum Mundial das tendências de 2014, especialmente nas questões econômicas, parece ser mais um indicador de que o próximo ano pode ser bem complicado no mundo e no Brasil (e, claro, no resto da América Latina). É bem possível que, aqui, os candidatos a presidente façam campanha em meio a um ambiente econômico em deterioração, que incluirá uma descrença crescente em relação às políticas públicas. Nada indica que será um ano eleitoral tranquilo.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Este artigo foi publicado originalmente na AE-News/Broadcast

 

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