Perspectiva binária

Governo Temer tanto pode cair num círculo vicioso quando construir um círculo virtuoso. Vai depender em parte da sorte, mas competência política e visão estratégica também são fundamentais.

Fernando Dantas

14 Setembro 2016 | 16h07

A súbita piora no cenário externo na sexta-feira (9/9/16), com os temores do mercado internacional de que os principais bancos centrais deixem de ser cúmplices do “superciclo de liquidez” que vem fazendo a festa dos ativos – e sendo uma providencial ajuda para emergentes vulneráveis como o Brasil – foi um sinal de como a situação pode ficar mais complicada para o governo de Michel Temer.

Paralelamente, o processo de desinflação pode estar se revelando um osso mais duro de roer do que supunha o Banco Central (BC) e uma corrente de analistas. As expectativas de inflação para 2017 já não estão caindo, e, no caso, dos Top 5, grupo que mais acerta as estimativas do Boletim Focus, elas subiram na última divulgação, tanto no conceito de curto quanto no de médio prazo

A inflação dos preços livres do IPCA acumulada em 12 meses até agosto de 2016 bateu em 9,2%, o maior valor desde outubro de 2003. Embora esta medida inclua os alimentos, o atual vilão inflacionário – dos quais se espera um recuo até o fim do ano, de que já se tem sinais nas coletas –, é difícil compatibilizar a ideia de que política monetária está funcionando na plenitude quando os preços livres têm desempenho tão ruim.

Inflação maior e mais resistente significa manutenção por mais tempo de elevados juros reais, supondo-se um BC autônomo e focado no seu mandato no âmbito do sistema de metas. E os juros altos, por sua vez, atrapalham o governo em quase todas as frentes possíveis. Na econômica, na forma de mais recessão e desemprego. Na política, com os problemas e pressões que surgem da piora econômica. E na área fiscal, aumentando a carga dos juros da dívida pública e piorando ainda mais a já assustadora trajetória percebida da dívida pública.

Nem é preciso dizer que todas essas dificuldades se retroalimentam e podem piorar o risco Brasil, o que por sua vez pode pressionar o câmbio – especialmente na hipótese de outros soluços do cenário internacional, ou mesmo de uma piora mais consistente –, o que se transmite aos juros, à atividade, ao desemprego, à piora da popularidade presidencial, à perda de governabilidade, etc.

De certa forma, pode-se dizer que as perspectivas do governo Temer têm um caráter binário, em que tanto se pode evoluir para um ciclo vicioso em que a economia não melhora, a sustentação política se erode e a contestação nas ruas cresce; quanto para um círculo virtuoso no qual, a partir de uma gradual melhora econômica, o presidente conquista legitimidade ante a maior parte da população e retém sua capacidade política de governar.

Para que este segundo cenário se materialize, Temer tem que contar com certa dose de sorte e também com inteligência estratégica. Não há dúvida de que o presidente e seu grupo político são bons articuladores no Congresso, o que talvez seja o maior trunfo do governo, já que sua sorte depende em boa parte da capacidade de aprovar medidas duras e que sofrerão acirrada resistência.

Mas o desenho mais geral da estratégia do governo ainda deixa muitas dúvidas, quando se considera que Temer trouxe para a mesa uma reforma trabalhista que – independentemente de seus méritos ou deméritos – parece ter sido feita de encomenda para dar à oposição a “comprovação” do discurso de que Dilma sofreu um golpe da elite que quer eliminar direitos sociais.

Quando o ajuste fiscal é tão dramaticamente fundamental, com parte da sociedade já percebendo sua urgência e necessidade, será que faz sentido abrir novas frentes de batalha reformista e ampliar a área de atrito entre o governo e os grupos de pressão? Os desafios do governo Temer são perturbadoramente difíceis, e a incompetência política poderá ser fatal. (fernando.dantas@estadao.com)

Fernando Dantas é jornalista do Broadcast

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 12/9/16, segunda-feira.