Pesadelo econômico no ano eleitoral

2021 vai fechando com tudo de ruim na economia: PIB parado (resultado do 3º tri foi divulgado hoje), desemprego elevado, inflação altíssima e juros subindo fortemente. A dúvida, olhando deste ponto, é se 2022 vai ter crescimento perto de zero, de zero ou abaixo de zero.

Fernando Dantas

02 de dezembro de 2021 | 19h46

E o Brasil vai chegando ao final de 2021 com inflação acima de 10%, desemprego acima de 12% e dois trimestres consecutivos, segundo e terceiro, de PIB negativo, na comparação dessazonalizada com os trimestres anteriores.

Numa definição conhecida, mas meio arbitrária, essas duas leituras negativas do PIB consecutivas configuram recessão. Mas, na verdade, a economia está mais parada do que afundando. O recuo do segundo tri foi de 0,4%, já próximo à estabilidade, e o do terceiro, divulgado hoje pelo IBGE, foi de apenas 0,1%, o que estatisticamente é zero a zero.

Isso não é nenhum consolo. Com a inflação elevadíssima e as expectativas de 2022 e 2023 se desgarrando das metas, o Banco Central está em meio a um aperto monetário a galope, já tendo elevado a Selic de 2% a 7,75% desde março. O Copom acelerou o ritmo para uma paulada de 1,5 ponto porcentual na última reunião, e a curva de juros e analistas ainda vinham pedindo mais, embora esse movimento tenha se refreado nos últimos dias.

É, enfim, um cenário econômico de pesadelo para um governo que vai ingressar no ano eleitoral, ainda mais tendo em conta que as projeções de crescimento econômico em 2022, já bem abaixo de 1%, rumam para zero ou até o território negativo. O Itaú, por exemplo, já projeta -0,5% para o próximo ano.

Luana Miranda, economista da Gap Asset, no Rio, nota que a divulgação do PIB do terceiro trimestre é sempre acompanhada de uma revisão mais ampla – no caso, como explicou o IBGE, houve ajuste das séries trimestrais às contas anuais de 2019, além de uma atualização de pesos.

A queda do PIB de 2020 passou de 4,1% para 3,9%. A alta do PIB do 1º trimestre de 2021, ante o 1º tri de 2020, passou de 1% para 1,3%; e a do 2º trimestre de 2021, no mesmo tipo de comparação, caiu de 12,4% para 12,3%.

Segundo Miranda, computando essas mudanças junto com um PIB do terceiro trimestre 0,3pp abaixo do que ela esperava, não se sai muito do ponto em que a economista estava em termos de análise da conjuntura. Ela crê que, em termos do mercado em geral, a divulgação do PIB do 3º tri hoje pelo IBGE também não alterou muito a percepção.

Ainda assim, vê-se um movimento de revisões para baixo de projeções de PIB para este ano e, mais significativamente, para 2022.

Miranda julga que isso deriva do fato de que muitos analistas estavam aguardando o PIB do terceiro tri, com sua rodada de revisões, que potencialmente poderia ter trazido surpresas. Adicionalmente, os sinais de alta frequência que chegam ao mercado, como os indicadores mensais do IBGE de comércio e indústria e os índices de confiança, têm sido ruins e alimentado o pessimismo.

As expectativas quanto ao PIB do quarto trimestre são desanimadoras e também se aproximam de zero (na comparação contra o tri anterior dessazonalizada). E, para 2022, pelo menos no primeiro semestre, os analistas têm dificuldade de enxergar vetores que pudessem melhorar significativamente o cenário.

O problema é claríssimo. Em termos cíclicos, a economia está muito mal parada. A alta inflação está corroendo a renda e o consumo, e, para os bens mais dependentes de crédito – e imóveis também – a alta violenta dos juros é um baita freio. A inflação superior a 10% no acumulado de 12 mesesdeve perdurar pelo menos no primeiro trimestre do próximo ano, e o BC ainda deve puxar o juro básico bem acima do nível atual.

O desemprego, por sua vez, permanece em nível superelevado em termos históricos, e o mercado de trabalho, ainda que aumentando o número de empregados, se debate com a má qualidade dos postos criados, o que se reflete na queda da renda este ano – que acelerou na última leitura, a PNADC de setembro.

No momento não se enxerga luz no fim do túnel, no sentido de desdobramentos que pudessem levar a uma reviravolta otimista para 2022. Mas há alguns fatores atenuantes potenciais, que poderiam evitar que o PIB do ano que vem vá para zero ou território negativo.

A agropecuária é um exemplo. O setor foi uma grande surpresa negativa no PIB do terceiro trimestre, com recuo de 8% ante o 2º tri na série dessazonalizada, o que foi atribuído a eventos climáticos. Mas os preços estão bons e, como nota Miranda, a expectativa é de um portentoso aumento de safra em 2022, que fica ainda maior pela base mais deprimida deste ano.

Ela cita também as eleições, com o governo federal fazendo de tudo para poder gastar eleitoreiramente, embora a economista considere que o impulso maior pode vir de obras e gastos de governos estaduais.

Fernando Rocha, sócio e economista-chefe da gestora JGP, no
Rio, menciona a possibilidade (também citada por Miranda) de animação na mineração e petróleo, além de obras de construção civil contratadas durante a bonança de juros baixos, já encerrada.

Mas há riscos também. Os gargalos logísticos e produtivos que estão emperrando a indústria de transformação pelo lado da oferta podem durar mais do que o hoje antevisto (mais ou menos até meados do ano que vem). A variante ômicron do coronavírus poderia trazer novas restrições à circulação e intensificar gargalos no Brasil ou em partes do mundo vitais para as cadeias de produção, como a Ásia.

Ponderar todos esses efeitos num ambiente de alta incerteza, ainda ampliada pelos riscos fiscais e a possível tensão eleitoral no Brasil em 2022, não é fácil. Mas o arco de dúvida fica inteiro no campo pessimista: quase não crescer, não crescer nada ou até recuar um pouco no ano que vem?

E esse cenário não estava nada claro até meados do ano. Rocha observa que sua projeção de crescimento para 2021 chegou a ser de 5,5% (acompanhando o sentimento de boa parte do mercado) e que efetivamente ele, à época, não esperava dois trimestres seguidos de PIB parado e até ligeiramente negativo. A projeção mediana do Focus para crescimento em 2022 se manteve acima de 2% (nada espetacular, mas aceitável) até o início de setembro.

“Se a gente voltar seis meses no tempo, a surpresa foi muito ruim”, ele diz.

Fernando Dantas é colunista do Broadcast (fernando.dantas@estadao.com)

Esta coluna foi publicada pelo Broadcast em 2/12/2021, quinta-feira.