Pesquisas e rumores de pesquisa mexem com mercados

Fernando Dantas

30 de setembro de 2014 | 00h02

O mercado financeiro no Brasil continua a flutuar ao sabor dos eventos eleitorais, sejam aqueles concretamente verificados, sejam rumores que podem vir a se confirmar ou não (neste segundo caso, provocando novas oscilações abruptas).

Na sexta-feira (26/9/14), chamou a atenção de muitos analistas e operadores a forte virada do mercado pela manhã. Depois de uma abertura ruim, em que, por volta das 10 horas, o dólar chegou a passar dos R$ 2,44, o Ibovespa foi cotado abaixo de 56 mil pontos e os juros futuros subiram, houve uma súbita reviravolta. Quando esta coluna estava sendo enviada, por volta das 13:30, o Ibovespa subia 2,13%, aos 57.189,16 pontos, o dólar era cotado a R$ 2,4130, e os juros futuros já haviam recuado substancialmente das máximas do dia.

O que houve? Analistas consultados por esta coluna estavam convictos de que provavelmente aconteceu algum “vazamento” de pesquisa eleitoral que possa ser interpretada de alguma forma como positiva para Marina, em comparação com as últimas percepções sobre o estado da candidatura do PSB. Ou, no mínimo, que houve um rumor de vazamento, que até pode não se confirmar, o que levaria a novas quedas no mercado (nota escrita em 29/9, segunda-feira: os fatos viriam a confirmar esta segunda hipótese). Uma hipótese bem mais remota seria um avanço surpreendente de Aécio. A pesquisa prevista para ser divulgada na sexta, 26/9, é da Datafolha.

“O mercado lá fora está calmo tanto em termos de bolsas quanto de moedas de emergentes, o que indica que o ocorrido esta manhã é claramente algo relacionado ao Brasil especificamente”, comentou um analista pela manhã.

O mercado financeiro no Brasil continua “torcendo” fervorosamente para que Marina derrote Dilma, já que Aécio é percebido como praticamente fora de combate. Além de toda a visão crítica sobre a política econômica da atual presidente, considerada heterodoxa, intervencionista e descuidada em termos fiscais e de controle da inflação, muitos participantes do mercado consideram que a campanha piorou a situação. A razão é que a retórica contra a autonomia do BC e as críticas ao ajuste “neoliberal” da economia (Dilma ataca seus adversários dizendo que pretendem fazer uma correção deste tipo) deixarão a presidente ainda mais compromissada com o atual padrão de política econômica num eventual segundo mandato.

Hoje, segundo o economista-chefe de uma gestora de recursos, o mercado considera que as chances de Dilma e Marina estão divididas meio a meio. Frisando que se tratam de números muito arbitrários e sem nenhuma pretensão de rigor econômico, ele diz que há uma visão de que o Ibovespa com Marina presidente iria a 70 mil pontos, e com Dilma cairia para 45 mil. O ponto intermediário entre esses dois cenários é 57.500. O Ibovespa em torno de 57 mil pontos, portanto, sinalizaria equilíbrio na disputa.

A visão de embate equilibrado, segundo alguns analistas, embute a previsão de que Dilma ainda aumente um pouco a sua vantagem no primeiro turno e supere Marina nas simulações de segundo turno. Quando a segunda etapa da campanha começar, porém, a visão é de que a candidata do PSB poderia reagir pelo fato de ter, como sua provável adversária, dez minutos de campanha na TV (no primeiro turno Dilma tem aproximadamente 12 e Marina, dois). Além disso, poderia haver apoios políticos à sua candidatura, como o do PSDB, que aumentariam a capilaridade da campanha e poderiam indicar melhor governabilidade no caso de Marina ser eleita.

Assim, se, por exemplo, a pesquisa do Datafolha mostrasse simplesmente que a vantagem de Dilma parou de aumentar, ou que aumentou em ritmo bem mais lento, isso já poderia ser considerado positivo pelo mercado e justificar a alta de hoje (a pesquisa veio a mostrar que Dilma continuou a avançar, provocando grande queda do mercado na segunda-feira, 29/9). Os próprios analistas e operadores ouvidos por esta coluna, porém, ressaltam que por enquanto se trata de especulação. Mas suficiente para mexer fortemente com os mercados e fazer muito dinheiro trocar de mãos.

Fernando Dantas é jornalista da Broadcast

Esta coluna foi publicada pela AE-News/Broadcast em 26/9/14, sexta-feira.

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